quarta-feira, 15 de julho de 2015

Técnica gera automaticamente conteúdo para jogos

Fonte Agência USP

Desde criança, o aluno de mestrado do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, Lucas Ferreira, era um apaixonado por games. O gosto pelos jogos cresceu junto com ele e, hoje, ele aplica sua paixão pelo mundo virtual na criação de novos desafios para os amantes de jogos eletrônicos. O trabalho do estudante, no qual são geradas automaticamente fases dentro de um game, faz parte de sua dissertação de mestrado, que será defendida em breve no Instituto.



Ferreira desenvolveu um algoritmo, uma sequência de comandos que é passada para o computador a fim de definir uma tarefa, capaz de gerar automaticamente conteúdo e novos níveis dentro de um jogo. O game utilizado para testar seu modelo durante o mestrado foi o Angry Birds. “A gente procurou um contexto em que alguns estudos ainda não haviam sido aplicados. Como o Angry Birds é baseado em física, ele nos traria diversos desafios para gerar conteúdos”, diz o estudante.O estudo desenvolvido pelo mestrando foi criado para analisar a interação dos jogadores com as fases geradas. “Nossa ideia era medir o grau de imersão dos usuários, descobrir se eles perderam a noção do tempo durante o jogo, esquecendo-se do mundo. Esses são alguns dos principais sentimentos que a indústria de jogos quer promover nos jogadores”, explica o mestrando.Para obter essas informações, o aluno criou um questionário para que os usuários, após terem jogado algumas fases, pudessem responder e dar um feedback ao desenvolvedor, opinando sobre o nível de diversão, dificuldade e interação experimentados. Com essas respostas, é possível comparar as fases geradas pelo aluno com as do jogo original.Antes de iniciar seu mestrado no ICMC na área de Geração Procedural de Conteúdo, Ferreira trabalhava em uma empresa de jogos australiana no formato de home office e essa experiência contribuiu muito para seu mestrado: “Eu consegui aliar a experiência de jogador e desenvolvedor, o que me ajudou bastante a criar mais rápido o jogo utilizado nos experimentos. Se eu não tivesse essa experiência, teria sido muito mais difícil”.O trabalho, que começou há cerca de dois anos, está sendo orientado pelo professor Claudio Toledo, do ICMC. O docente já havia atuado anteriormente na área de games, quando foi orientador de uma iniciação científica no Instituto, a qual desenvolveu algoritmos baseados em computação evolutiva para inteligência artificial do jogo.Toledo diz que a execução de todas as etapas, tal como realizado no trabalho de Lucas, é algo difícil de ser encontrado: “Nós geramos conteúdo, avaliamos a jogabilidade e fizemos testes com humanos. Fechamos essas três etapas. Dificilmente você vê pesquisadores, mesmo no exterior, terminando esses três passos na área de geração de conteúdo. Essa foi a principal contribuição do projeto”.


sexta-feira, 3 de julho de 2015

Manteiga enriquecida pode ajudar pacientes com Alzheimer

Agência USP

A introdução de uma manteiga enriquecida com ácido linoleico conjugada (CLA) — um tipo de ácido graxo encontrado na gordura de lacticínios — na dieta de ratos aumentou a atividade de uma enzima ligada à memória. Os resultados dos testes foram publicados, em abril, no Journal of Neural Transmission, e o estudo sugere que o consumo de alimentos ricos em CLA pode ser útil para pacientes com a Doença de Alzheimer.Entre os autores da pesquisa estão Wagner Gattaz, Leda Leme Talib, Emanuel Dias Neto e Fábio Mury, do Laboratório de Neurociências – LIM 27, do Instituto de Psiquiatria (IPq), do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). Também assinam o artigo Marcos Gama e Fernando Lopes, da Embrapa, e Nadia Rezende Raposo, da Universidade Federal de Juiz de Fora.De acordo com Leda Leme Talib, chefe do Laboratório de Neurociências, estudos da literatura científica demonstram que pacientes com Alzheimer apresentam baixa atividade de uma enzima chamada fosfolipase A2 (PLA2) no cérebro, ela está ligada às estruturas cerebrais relacionadas à memória.“A fosfolipase A2 (PLA2) é uma enzima que atua sobre fosfolípides, gorduras constituintes das membranas celulares, e ácidos graxos, que funcionam como mediadores na formação da memória. Na pesquisa, observamos que a ingestão de alimentos ricos em ácido linoleico modulou a atividade dessa enzima, essa maior atividade da fosfolipase implicou em uma melhora da memória dos animais em estágio inicial do Alzheimer”.



Leda explica que em pacientes sem Alzheimer, as membranas celulares são fluídas e renovadas normalmente, mas em pacientes com a doença, as membranas são rígidas e dificultam a liberação de ácidos graxos, como o ácido linoleico, que influencia nos mecanismos de formação da memória. Por isso o aumento da atividade da fosfolipase A2, que atua nas camadas das membranas celulares, pode ter contribuído para melhorar a memória dos animais.TestesDurante quatro semanas, ratos receberam dietas com quantidade normal de ácido linoleico (grupo controle), quantidade elevada (manteiga enriquecida) e abaixo do normal. Eles foram ensinados a desempenhar determinada tarefa para analisar a situação da memória.A análise do tecido cerebral dos animais mostrou que os alimentados com maior quantidade de ácido linoleico apresentavam maior atividade das fosfolipases, correlacionada à melhoria da memória dos animaisApesar de os testes sugerirem que os produtos lácteos enriquecidos com ácido linoleico podem ser úteis no tratamento da doença, a pesquisadora alerta que precisam ser feitos mais estudos. “Precisamos analisar o que essa alimentação rica em gordura pode acarretar na saúde dos animais, são necessárias mais intervenções até chegarmos às análises com humanos”, avisa Leda.


quinta-feira, 2 de julho de 2015

Estudo revela fatores que aumentam risco de morte por H1N1

Fonte Agência USP
Na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, análises dos pacientes que tiveram influenza A(H1N1)pdm09 em São Paulo durante a epidemia de gripe que aconteceu em 2009 revelam os fatores que levam a um maior risco de morte provocada pela doença. O trabalho da médica sanitarista Ana Freitas Ribeiro aponta que os maiores riscos estão em pessoas com idade entre 18 e 59 anos, com obesidade e imunossupressão, entre outros fatores. Estudo específico com gestantes constatou maior número de perdas fetais e partos prematuros nas mulheres que morreram. A pesquisa ressalta a importância da identificação dos pacientes com maior risco e do tratamento precoce para reduzir a mortalidade e aumentar as chances de cura.
A identificação de um novo vírus da gripe (subtipo viral, influenza A(H1N1)pdm09), em abril de 2009 e anúncio do início de uma pandemia de influenza pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em junho do mesmo ano, levaram ao início da pesquisa. Durante o trabalho foram realizados dois estudos caso-controles, em pacientes e em gestantes hospitalizados com influenza A(H1N1) pdm09 confirmada laboratorialmente e Doença Respiratória Aguda Grave (DRAG). “O objetivo era identificar os fatores de risco de morte nos dois grupos”, afirma Ana. “Nas gestantes, foram analisados também os desfechos da gestação e e neonatais, após o nascimento das crianças”.
A médica explica que os “casos” se referem aos pacientes que evoluíram para morte e os “controles” são aqueles que alcançaram a cura. “Ambos os grupos foram selecionados por meio do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN-Influenza-web), organizado pelo Ministério da Saúde”, diz, “sendo sorteados dois controles no estudo dos pacientes, e quatro no das gestantes, pareados por semana epidemiológica da data de internação”. Durante a pesquisa aconteceram avaliações dos prontuários hospitalares e entrevistas domiciliares, a partir de formulários padronizados, de um total de 812 pacientes. “O primeiro estudo foi realizado nas regiões metropolitanas de São Paulo e de Campinas, de 28 de junho a 29 de agosto de 2009. Foram avaliados 579 pacientes, sendo 193 que morreram e 386 que se recuperaram”, descreve a médica. “Nas gestantes, o estudo incluiu o Estado de São Paulo, de 9 de junho a 1 de dezembro de 2009, com 233 casos analisados, entre os quais houve 48 mortes”.

Risco de morte 


No primeiro estudo, foram fatores de risco para morte ter idade entre 18 e 59 anos, doenças crônicas, imunodepressão, obesidade e ter tido atendimento anterior à internação. “O tratamento antiviral, quando administrado nas primeiras 72 horas do início dos sintomas, foi fator de proteção”, destaca Ana.Em gestantes, foram investigados 48 casos e 185 controles. “Foram fatores de risco para morte ter tido atendimento prévio à internação e estar no terceiro trimestre de gestação. O tratamento antiviral foi fator de proteção, principalmente quando administrado até 72 horas do início dos sintomas”, afirma a médica. Em relação aos desfechos gestacionais, houve maior proporção de perdas fetais e partos prematuros entre as mulheres que morreram. “Elas tiveram recém-nascidos vivos com peso mais baixo e índices inferiores no Apgar do primeiro minuto (medida dos sinais vitais), quando comparado às mulheres que se recuperaram e tiveram parto durante a internação”.De acordo com Ana, a identificação dos pacientes de maior risco e o tratamento precoce são fatores importantes para a redução das internações e da mortalidade por influenza. “A capacitação dos profissionais de saúde e o acesso aos serviços de saúde são fatores importantes para o adequado manejo clínico dos pacientes com síndrome gripal e condições de risco, bem como pacientes com sinais de agravamento, em especial a utilização precoce do antiviral”, aponta. “Manter boa cobertura durante a Campanha de Vacinação contra Influenza nos grupos prioritários também é fundamental”.Os grupos prioritários para a vacinação são crianças de seis meses a cinco anos de idade, gestantes, puérperas, trabalhadores da área de saúde, povos indígenas, pessoas com 60 anos ou mais, população privada de liberdade e funcionários do sistema prisional e pessoas portadoras de doenças crônicas não transmissíveis e outras condições clínicas especiais, como doenças respiratórias, cardíacas crônicas, renais, hepáticas e neurológicas crônicas, diabetes, imunossupressão, trissomias (síndrome de Down), obesidade (grau III) e transplantados. Os resultados da pesquisa são descritos na tese de doutorado “Fatores de Risco para Óbito por Influenza A(H1N1)pdm09, Estado de São Paulo, 2009″, defendida na FSP no último mês de março. O trabalho teve a orientação da professora. Dirce Maria Trevisan Zanetta.


Acesso ao texto completo

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Características estruturais e funcionais do sistema nervoso central vasos linfáticos

Uma das características do sistema nervoso central é a falta de um sistema de drenagem linfática clássica. Embora seja agora aceite que o sistema nervoso central sofre constante vigilância imunológica que ocorre dentro do meníngea compartimento 1-3, os mecanismos que regem a entrada e saída células do sistema imunológico do sistema nervoso central continuam pouco no compartimento 4-6. Na procura de redes de células T para dentro e para fora do meninges, descobrimos vasos linfáticos funcionais que revestem  os seios durais. Estas estruturas expressão todas as características moleculares de células endoteliais linfáticas, são capazes de transportar tanto fluido e células do sistema imunológico do líquido cefalorraquidiano, e está conectado para os nódulos linfáticos cervicais profundos. A localização única destes vasos pode ter impedido a sua descoberta até agora, contribuindo, assim, para o conceito  da ausência da vasculatura linfática no sistema nervoso central. A descoberta do  sistema linfático no centro sistema nervoso pode chamar para uma reavaliação da pressupostos básicos em neuro imunologia e lança nova luz sobre o etiologia de doenças neuro-inflamatórios e neurodegenerativas, associada com a disfunção do sistema imunológico.


quarta-feira, 3 de junho de 2015

Novos biomarcadores vão ajudar a detectar câncer de bexiga

Por Valéria Dias - valdias@usp.br
 Publicado em 2/junho/2015 |  Editoria : Saúde | Imprimir Imprimir | 

A descoberta de proteínas e metabólitos (pequenas moléculas que são produto do metabolismo humano) na urina de pessoas com e sem câncer de bexiga poderá ajudar, no futuro, a detecção precoce da doença. Os estudos estão sendo conduzidos pela pesquisadora Juliana Vieira Alberice, no Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da USP. “Outros estudos ainda necessitam ser realizados, mas os resultados obtidos até agora indicam que poderemos utilizar essas proteínas e metabólitos como biomarcadores para o câncer de bexiga”, aponta. Pesquisa contribui para criar, no futuro, kits para a detecção da doença Segundo os pesquisadores envolvidos no projeto, “biomarcadores são moléculas que podem ser medidas experimentalmente e indicam a ocorrência de uma determinada função normal ou patológica de um organismo. Assim, podem ser utilizados como ferramentas não apenas para o diagnóstico como também para o prognóstico de doenças, que é uma previsão do resultado do tratamento”. O estudo foi realizado durante a pesquisa de doutorado de Juliana no IQSC, sob a orientação do professor Emanuel Carrilho, coordenador do Bioanalytical, Microfabrication, and Separations Group (BioMicS), um dos grupos participantes do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Bioanalítica (INCTBio), no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). 

A pesquisa envolveu duas etapas: a detecção de biomarcadores para o diagnóstico de câncer de bexiga, e biomarcadores para a detecção da progressão da doença (quando o câncer evolui de baixo para alto risco) e para verificar as chances de reincidência após uma intervenção médica. Foram utilizadas duas abordagens metodológicas: uma proteômica, que busca por proteínas diferencialmente expressas nesses grupos, realizada nos laboratórios do IQSC; e outra metabolômica, que busca identificar diferentes metabólitos envolvidos na doença. A segunda abordagem foi desenvolvida no Centro de Excelência em Metabolômica e Bioanálise (CEMBIO) da Universidade de San Pablo, em Madri (Espanha), com o financiamento obtido por meio de um convênio entre força aérea brasileira e Air bus military da Espanha Biomarcadores Na análise proteômica, os pesquisadores coletaram a urina de 30 pessoas sendo 15 com câncer de bexiga e 15 sem a doença, no Hospital A.C. Carmargo, em São Paulo. “Fizemos algo chamado de pool, a mistura de volumes exatamente iguais para o grupos de pacientes e controle, separadamente”, explica. Por meio das técnicas chamadas de eletroforese bidimensional e OFFGEL foi possível separar as proteínas presentes nos dois grupos de amostras. Utilizando-se e do equipamento LC-MS (cromatografia liquida acoplada a espectrometria de massas), a pesquisadora conseguiu detectar 3 tipos de proteínas: as que estavam no grupo de pacientes, as que estavam no grupo controle e as encontradas nos dois grupos mas em quantidades diferentes. “Essas proteínas têm potencial para se tornarem biomarcadores para o câncer de bexiga. Mas para isso ocorrer, será preciso testá-los em uma grande população.” Já na análise metabolômica, realizada no CEMBIO, em Madri, foram estudadas apenas pessoas com câncer de bexiga, de alta e de baixa possibilidade de progressão da doença. As amostras de urina dos dois grupos foram coletadas de 40 pacientes do Centro de Estudos Oncológicos de Madri. Juliana utilizou as técnicas de cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massa e eletroforese capilar acoplada à espectrometria de massas, além de estatística multivariada e de outros softwares, para separar e identificar os metabólitos presentes na urina dos dois grupos. De acordo com Juliana, os resultados metabolômicos e proteômicos estão relacionados, aumentando, assim, as chances de eles se tornarem biomarcadores. “A proposta seria criar um kit que detecta, a partir da urina do paciente, se há câncer ou não, e qual o possível prognóstico para cada tipo. No Brasil ainda não temos nada parecido. Entretanto, no exterior, já existem biomarcadores semelhantes, mas eles não são utilizados para se obter o diagnóstico”, informa. Outros estudos Para se tornarem biomarcadores, novas pesquisas deverão ser realizadas para aprofundar esses resultados. Além de aumentar o número de amostras analisadas, o ideal seria que as análises proteômica e metabolômica fossem realizadas com as mesmas amostras de urina. Atualmente, Juliana dá continuidade à pesquisa em seu pós-doutorado no IQSC. Na última semana de maio, a pesquisadora embarcou para os Estados Unidos, a fim de participar de um congresso para expor esses resultados. De acordo com os pesquisadores envolvidos no projeto, “o câncer de bexiga acomete homens e mulheres, sendo que, somente no Brasil, 8.600 novos casos ao ano são diagnosticados. Nos estágios iniciais o tumor é “silencioso” e alguns sintomas se manifestam apenas em estágios mais avançados. Além disso, os sintomas são comuns a outras doenças do trato gênito urinário, o que dificulta o diagnóstico preciso. A conduta padrão no diagnóstico e acompanhamento da doença é a cistoscopia transuretral, procedimento extremamente invasivo e doloroso, de elevado custo, além de não garantir todos os resultados. Por isso, a descoberta de biomarcadores que possam ajudar a avaliar a presença e o grau do tumor é de extrema importância. A descoberta dessas moléculas em urina também agrega grande valor à pesquisa, uma vez que o procedimento para coleta não é invasivo e o paciente não é exposto a procedimentos desconfortáveis e não tem sua rotina de tratamento alterada.”

terça-feira, 28 de abril de 2015

Alteração comportamental de animais sinaliza, dias antes, a ocorrência de terremotos

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – O dado de que alterações no comportamento dos animais sinalizam, com horas ou dias de antecedência, eventos como os terremotos já era conhecido. Especialmente noticiada foi a disparada dos elefantes asiáticos para terras altas por ocasião do terremoto seguido de tsunami de 26 de dezembro de 2004. Muitas vidas humanas foram salvas graças a isso. Mas tais eventos ainda não haviam sido documentados de maneira rigorosa e conclusiva. Nem fora estabelecida uma correlação de causa e efeito entre essa modificação do comportamento animal e fenômenos físicos mensuráveis. Isso ocorreu agora em pesquisa realizada por Rachel Grant, da Anglia Ruskin University (Reino Unido), Friedemann Freund, da agência espacial Nasa (Estados Unidos), e Jean-Pierre Raulin, do Centro de Radioastronomia e Astrofísica Mackenzie (Brasil). Artigo relatando o estudo, “Changes in Animal Activity Prior to a Major (M=7) Earthquake in the Peruvian Andes”, foi publicado na revista Physics and Chemistry of the Earth. O físico Jean-Pierre Raulin, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, participou do estudo no contexto do projeto de pesquisa “Monitoramento da atividade solar e da Anomalia Magnética do Atlântico Sul (AMAS) utilizando uma rede de receptores de ondas de muita baixa frequência (VLF) - SAVNET - South América VLF network”, apoiado pela FAPESP. “Nosso estudo correlacionou alterações no comportamento de aves e pequenos mamíferos do Parque Nacional Yanachaga, no Peru, com distúrbios na ionosfera terrestre, ambos os fenômenos verificados vários dias antes do terremoto Contamana, de 7,0 graus de magnitude na escala Richter, que ocorreu nos Andes peruanos em 2011”, disse Raulin à Agência FAPESP. 




Os animais foram monitorados por um conjunto de câmeras. “Para não interferir em seu comportamento, essas câmeras eram acionadas de forma automática no momento em que o animal passava na sua frente, registrando a passagem por meio de flash de luz infravermelha”, detalhou o pesquisador. Em um dia comum, cada animal era avistado de cinco a 15 vezes. Porém, no intervalo de 23 dias que antecedeu o terremoto, o número de avistamentos por animal caiu para cinco ou menos. E, em cinco dos sete dias imediatamente anteriores ao evento sísmico, nenhum movimento de animal foi registrado. Nessa mesma época, por meio do monitoramento das propriedades de propagação de ondas de rádio de muito baixa frequência (VLF), os pesquisadores detectaram, duas semanas antes do terremoto, perturbações na ionosfera sobre a área ao redor do epicentro. Um distúrbio especialmente grande da ionosfera foi registrado oito dias antes do terremoto, coincidindo com o segundo decréscimo no avistamento dos animais. Os pesquisadores propuseram uma explicação capaz de correlacionar os dois fenômenos. Segundo eles, a formação maciça de íons positivos, devido à fricção subterrânea das rochas durante o período anterior ao terremoto, teria provocado tanto as perturbações medidas na ionosfera quanto a alteração comportamental dos animais. A fricção é resultado da subducção ou deslizamento da placa tectônica de Nazca sob a placa tectônica continental. É sabido que a maior concentração de íons positivos na atmosfera provoca, seja em animais, seja em humanos, um aumento dos níveis de serotonina na corrente sanguínea. Isso leva à chamada “síndrome da serotonina”, caracterizada por maior agitação, hiperatividade e confusão. O fenômeno é semelhante à inquietação, facilmente perceptível em humanos, que ocorre antes das tempestades, quando a concentração de elétrons nas bases das nuvens também provoca um acúmulo de íons positivos na camada da atmosfera próxima ao solo, gerando um intenso campo elétrico no espaço intermediário. “No caso dos terremotos, cargas positivas formadas no subsolo devido ao estresse das rochas migram rapidamente para a superfície, resultando na ionização maciça de moléculas do ar. Em algumas horas, os íons positivos assim formados alcançam a base da ionosfera, localizada cerca de 70 quilômetros acima do solo. Esse aporte maciço de íons teria provocado as flutuações da densidade eletrônica na baixa ionosfera que detectamos. Por outro lado, durante o trânsito subterrâneo das cargas positivas, devido a uma espécie de ‘efeito de ponta’, a ionização tende a se acumular perto das elevações topográficas locais – exatamente onde estavam localizadas as câmeras. Nossa hipótese foi que, para se livrar dos sintomas indesejáveis da síndrome da serotonina, os animais fugiram para áreas mais baixas, onde a ionização não é tão expressiva”, explicou Raulin. “Acreditamos que ambas as anomalias surgiram a partir de uma única causa: a atividade sísmica causando estresse na crosta terrestre e levando, entre outras coisas, à enorme ionização na interface solo-ar. Esperamos que nosso trabalho possa estimular ainda mais a investigação na área, que tem o potencial de auxiliar as previsões de curto prazo de riscos sísmicos”, declarou Rachel Grant, principal autora do artigo. Independentemente da observação do comportamento animal, os resultados obtidos mostram que a previsão de terremotos poderia ser feita também mediante a detecção da ionização do ar, com o monitoramento do campo elétrico atmosférico. “Já temos detectores instalados no Brasil, no Peru e na Argentina. E pretendemos, em breve, instalar sensores de campo elétrico atmosférico nos lugares propícios a atividades sísmicas importantes. Isso daria uma previsibilidade da ordem de duas semanas ou até mais. Por ocasião do terremoto do Haiti, em janeiro de 2010, a rede SAVNET já tinha detectado flutuações na ionosfera com 12 dias de antecedência, com resultados publicados na revista NHESS – Natural Hazards and Earth System Sciences”, afirmou Raulin.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Influência Da Cultura No Comportamento Alimentar De Gestantes: Contribuições Para Enfermagem

Resumo da autora


As escolhas alimentares humanas estão associadas a diversas influências de ordem social, cultural e histórica, além do campo biológico. As influências culturais indicam os alimentos aceitos e os alimentos proibidos e traduzem os significados e os modos de vida de um grupo em particular. Para as gestantes, que vivenciam um período de constantes transformações e readaptações, o cenário social em que vivem e a história cultural sinalizam quais saberes e práticas alimentares estão de acordo para a manutenção da saúde. Este estudo teve como objetivo apreender as influências culturais no comportamento alimentar de gestantes. Para tanto, optou-se pela pesquisa de campo, com abordagem qualitativa e vertente etnográfica. O método da etnoenfermagem, por meio da observação participante e da entrevista, possibilitou a identificação e a compreensão de significados, crenças e hábitos que determinam o comportamento alimentar das gestantes. Participaram do estudo três gestantes com idade gestacional inferior a 30 semanas, moradoras da região norte de Santa Maria, Rio Grande do Sul, e assistidas pela enfermeira durante o pré-natal. O cenário do estudo contemplou o consultório de enfermagem e o domicílio das gestantes. A coleta de dados ocorreu de março a maio de 2010, após aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Maria. Como resultados foram constituídas três categorias: “dos saberes aos sabores: as práticas alimentares das gestantes”; “entre desejos e possibilidades: as adaptações alimentares durante o período gestacional”; e “o aumento de peso gestacional: um olhar sobre a doença, um olhar sobre a vaidade”. 

Evidenciou-se que o comportamento alimentar das gestantes está imbricado a múltiplos significados culturais. A memória, as tradições, as relações sociais e familiares, a mídia e as noções de saúde, doença e estética representam os núcleos centrais para as conformações alimentares. O enfermeiro que realiza o cuidado pré-natal, ao atentar para a cultura das mulheres e de suas famílias, vislumbra a motivação das escolhas alimentares e pode, dessa forma, reorientar ou preservar o consumo de determinados alimentos, além de identificar e prevenir possíveis riscos nutricionais. Ao valorizar as práticas alimentares e os significados atribuídos aos alimentos, o enfermeiro aproxima, estrategicamente, os saberes profissionais aos saberes populares, incidindo num cuidado cultural à gestante. Texto completo: Influência Da Cultura No Comportamento Alimentar De Gestantes: Contribuições Para Enfermagem