quinta-feira, 11 de abril de 2013

Artigo faz revisão bibliográfica da produção científica sobre a Nutrição na Atenção Primária à Saúde no Brasil

Fonte Scielo


As autoras descrevem que a literatura mostra a efetividade das Ações de Nutrição na Atenção Primária (APS) para a promoção da saúde e a prevenção e tratamento de agravos. A Atenção Primária à Saúde é definida como os cuidados básicos e essenciais, para os quais há métodos, tecnologias e evidências científicas, ao alcance universal de indivíduos e famílias e contando com sua participação.
Segundo as autoras, no âmbito da APS no país, as ações de alimentação e nutrição e do cuidado nutricional compreendem atividades como a vigilância alimentar e nutricional, promoção da alimentação saudável e programas de prevenção e controle de distúrbios nutricionais, tais como anemia ferropriva e hipovitaminose A, além do acompanhamento das condicionalidades de programas governamentais, como o Programa Bolsa Família. Atualmente, tais ações são sistematizadas e organizadas numa Matriz de Ações de Alimentação e Nutrição na Atenção Básica de Saúde, representando um esforço convergente e complementar a diversos programas públicos de saúde.



As autoras salientam que estudo conduzido no Canadá aponta que um modelo de serviço de nutrição interdisciplinar, com diferentes e complementares serviços de apoio é mais prático e acessível à população, com melhor custo-efetividade e sustentabilidade do que um modelo de serviço de nutrição disciplinar. Assim, entende-se que as ações de alimentação e nutrição vão além das atividades desempenhadas por nutricionistas e têm importante papel na promoção da saúde da população e na prevenção e tratamento de agravos.
Com esta revisão sistemática de literatura, os autores concluíram também que a produção na área é crescente, porém identificaram que há necessidade de se redirecionarem as abordagens e os objetos de futuros estudos, focando-se mais em modelos de intervenção e em avaliação de programas.

O artigo "Produção científica sobre nutrição no âmbito da Atenção Primária à Saúde no Brasil: uma revisão de literatura" foi publicado na Revista Científica Ciência & Saúde Coletiva (Vol.18, Nº 2, Rio de Janeiro, fevereiro 2012) e editada pela Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (ABRASCO).

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Identificadas regiões do genoma ligadas ao câncer de ovário

Rosemeire Soares Talamone, do Serviço de Comunicação Social da Prefeitura USP de Ribeirão Pretoimprensarp@usp.br


Pesquisadores reunidos em consórcio internacional acabam de publicar resultados, identificando e caracterizando novas regiões do genoma humano associadas ao risco do câncer de ovário. O estudo teve a participação do professor Houtan Noushmehr, do Departamento de Genética da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP. As regiões identificadas apresentam alterações em um único par de base e, segundo os pesquisadores, estão em partes do DNA não codificantes, ou seja, não estão nos 3% do genoma que produzem proteínas, entretanto, são importantes na regulação da produção dessas proteínas.
O que os pesquisadores fizeram foi encontrar a associação dessas regiões que controlam a produção de proteína com o câncer de ovário. Mais pesquisas serão necessárias para determinar a verdadeira função biológica dessa região do DNA, mas o trabalho contribui para o estabelecimento de bases para a medicina genômica pessoal, segundo o professor  Noushmehr. Ele é co-autor em 2 dos 13 artigos publicados em 27 de março nas revistas Human Molecular GeneticsAmerican Journal of Human GeneticsPLoS GeneticsNature GeneticsNature Communications.

Noushmehr foi responsável por parte da análise de dados. Em trabalho anterior, o professor havia utilizado uma ferramenta de bioinformática, o FunciSNP, para integrar dados coletados em pesquisas sobre genoma e epigenoma de doenças como o câncer com o Genome-WideAssociation Studies (GWAS). Essa ferramenta foi desenvolvida pelo próprio professor Noushmehr quando fez seu pós-doutorado na Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos. “Meu laboratório na FMRP está interessado em decifrar as regiões reguladoras do genoma que podem conferir riscos a doenças complexas como o câncer de ovário, por exemplo”, ressalta. Os resultados publicados agora são frutos do trabalho de um grupo com mais de 100 pesquisadores reunidos em consórcio de colaboração internacional dos Estados Unidos e Reino Unido, o Collaborative oncological gene-environment study (CPV), do qual Noushmehr faz parte. Também utilizaram grande quantidade de dados gerados por outros grandes consórcios de pesquisadores, como The Cancer Genome Atlas (TCGA), ENCOD e “GWAS”.

Análise de dados
O chefe do Departamento de Genética da FMRP, o professor Wilson de Araujo da Silva Junior, destaca a importância da formação de Noushmehr para a análise desses dados. Biólogo com mestrado em biologia molecular e em bioinformática e doutorado na área de genética, “ele é o que chamamos de bioinformatacompleto; entende tanto a parte biológica como a parte computacional do estudo”. Noushmehr domina a visualização do problema biológico e também o conhecimento para desenvolver uma ferramenta capaz de decifrar esse problema. Ainda, segundo o professor Silva Junior, essa ferramenta de bioinformática consegue simplificar uma análise, o que normalmente outros profissionais, trabalhando de forma isolada, levam mais tempo ou realizam com menos eficiência. “Nesse caso, foi analisada uma quantidade muito grande de informação do genoma, tanto de pessoas saudáveis quanto de pacientes com câncer de ovário”.
Os resultados mostraram que determinadas regiões conferem mais riscos para o câncer de ovário. Essa revelação, garante Silva Junior, abre caminho para orientar o médico na conduta a ser tomada para o tratamento das pessoas acometidas por esse tipo de câncer. E melhor, a terapia pode ser personalizada, pois terão à disposição informações quanto à agressividade do tumor. O professor Noushmehr participou de trabalhos que geraram os artigos Identificationand molecular characterizationof a new ovarian cancer susceptibility locus at 17q21.31 e GWAS meta-analysisandreplicationidentifiesthree new susceptibility loci for ovarian cancerpublicados na Nature Communications e na Nature Genetics,  respectivamente.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Em busca de alvos terapêuticos, cientistas mapeiam rede de interação gênica


Por Karina Toledo
Agência FAPESP – Descobrir como os genes de um determinado tecido do corpo humano se comunicam, e o que muda nessa rede de interação gênica quando uma pessoa fica doente, permite não apenas compreender melhor o mecanismo molecular das enfermidades como também identificar alvos terapêuticos para o desenvolvimento de novas drogas. Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) estão usando essa estratégia para estudar o cérebro de pessoas com uma forma de epilepsia resistente aos medicamentos hoje disponíveis. Também estão usando o método para entender o desenvolvimento do timo, órgão de grande importância para o sistema imunológico, com o objetivo futuro de descobrir como as doenças autoimunes e as imunodeficiências se instalam. “Estamos aplicando na área de genômica uma ferramenta que surgiu na Física há muito tempo: análise de redes complexas. Isso permite mapear de maneira precisa os genes mais importantes e aqueles que têm mais ligações com outros genes”, contou Carlos Alberto Moreira-Filho, da Faculdade de Medicina (FMUSP).


A análise é feita com uma amostra milimétrica do tecido a ser estudado. Os cientistas extraem o RNA mensageiro presente no fragmento e, por meio de análises estatísticas, mensuram quais genes estão mais ou menos expressos no local. “Nossos genes são os mesmos em qualquer parte do corpo. O que diferencia uma célula da retina de uma do epitélio ou da mucosa gástrica é o conjunto de genes que está sendo expresso e a rede de interação entre eles. Por meio de análises estatísticas par a par, é possível perceber quando a expressão de um gene aumenta ou diminui e quem sobe ou desce com ele. Assim mapeamos a rede de interação”, explicou Moreira-Filho. Essa análise permite identificar dois tipos de genes-chave em um tecido: os HUBs – aqueles que têm um número grande de ligações com outros genes – e os VIPs – que, embora não tenham muitas ligações, funcionam como uma ponte entre os genes do tipo HUB.
“Identificar quem é VIP e quem é HUB não é mera curiosidade estatística. É extremamente importante em termos de função biológica. O gene HUB está relacionado a uma via metabólica importante e o VIP é responsável por unir duas ou mais vias metabólicas em um processo”, disse o pesquisador. Os softwares desenvolvidos para essas análises podem, segundo Moreira-Filho, ser usados para estudar doenças em qualquer parte do corpo. Servem ainda como ferramenta para estudos de genômica funcional de microrganismos, plantas e animais, levantando informações úteis para pesquisas que busquem, por exemplo, o melhoramento genético.
O trabalho vem sendo realizado no âmbito do projeto “Modelos e métodos de e-Science para ciências da vida e agrárias”, coordenado por Roberto Marcondes Cesar Junior, do Instituto de Matemática e Estatística (IME-USP), e conta com a colaboração do grupo liderado por Luciano Fontoura da Costa no Instituto de Física de São Carlos (IFSC-USP). O projeto é financiado pela FAPESP e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio do Programa de Apoio a Núcleos de Excelência (Pronex).


Sinapse
As análises relacionadas à epilepsia, porém, começaram antes mesmo do Pronex – no âmbito de um Projeto Temático coordenado por Moreira-Filho. O objetivo era entender por que alguns pacientes com a forma mais comum da doença – chamada de epilepsia do lobo temporal mesial – não respondem ao tratamento medicamentoso. “Estimamos que um terço dos indivíduos afetados por esse tipo de epilepsia no mundo seja refratário às drogas existentes, algo em torno de 10 milhões de pessoas”, contou o pesquisador. Esses pacientes chegam a ter várias crises por semana, o que pode causar importante comprometimento da qualidade de vida, além do risco de morte súbita. Atualmente, a única opção nesses casos é remover cirurgicamente a parte do hipocampo afetada – procedimento difícil, caro, invasivo e ao qual poucos têm acesso.
“O ideal é encontrar uma solução medicamentosa, mas para isso precisamos entender melhor o mecanismo da doença. E uma das maneiras mais interessantes de fazer isso é pelo estudo das redes de interação gênica”, afirmou Moreira-Filho. No início, os pesquisadores usavam softwares mais simples, capazes apenas de mapear a rede de genes diferencialmente expressos – aqueles que estão se expressando de forma diferente por causa de um estímulo do ambiente, como febre ou trauma. Nessa época, a rede tinha entre 200 e 400 genes. Agora, graças aos softwares mais complexos, são cerca de 15 mil, o que corresponde a praticamente todos os genes expressos nessa região do hipocampo.
“Hoje a gente sabe com certeza que ser diferencialmente expresso não é a única razão da relevância de um gene em uma doença. Às vezes isso é uma consequência do padrão de relacionamento dos genes que mudou. Percebemos que os genes diferencialmente expressos são um elemento de perturbação da rede. Para saber onde intervir, é preciso conhecer a rede toda”, contou Moreira-Filho. As investigações iniciais na área de epilepsia do lobo temporal mesial já resultaram em um trabalho publicado na revista PLoS One. No artigo, os pesquisadores mostram que, dependendo do estímulo que desencadeia a doença, ela adquire um perfil molecular diferente. “Tem uma forma que resulta de um insulto precipitante febril e outra que resulta de outros tipos de estímulos. São perfis diferentes do ponto de vista molecular e isso é importante para identificar alvos terapêuticos. Já identificamos alguns genes candidatos para estudos com drogas in vitro e em modelos animais”, contou.
As pesquisas com fragmentos do timo ainda estão no começo, mas já foi possível perceber que o padrão de expressão dos genes nesse órgão sofre uma grande alteração a partir dos seis meses de idade e muda novamente a partir de um ano. Os resultados preliminares foram apresentados na 2ª Escola São Paulo de Ciência Avançada em Imunodeficiências Primárias (ESPCA-PID),realizada entre os dias 3 e 8 de março. “O timo é responsável pelo desenvolvimento da tolerância central, ou seja, ele ensina as células de defesa a não atacar antígenos do próprio organismo. O órgão é grande em recém-nascidos e diminui com o passar do tempo, mas a tolerância se mantém. Queremos entender o que acontece de tão espetacular com o timo nesse primeiro ano de vida”, afirmou Moreira-Filho.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Sistema aprimora monitoramento das ondas na costa brasileira


Por Luiz Paulo Juttel
Agência FAPESP – O monitoramento e a previsão de processos costeiros são atividades que interessam a diversos setores da sociedade. Dados sobre as ondas marítimas provenientes de simulações computacionais permitem identificar a geração e a chegada de eventos energéticos, como ciclones, de modo a orientar atividades navais, de pesca e exploração de petróleo. O Brasil acaba de ganhar uma ferramenta de modelagem matemática voltada a esse tipo de análise. O Sistema de Previsão e Monitoramento Costeiro (SIMCos) foi desenvolvido por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam) para simular diversas características das ondas que chegam à costa brasileira. A plataforma produz informações sobre altura significativa, altura potencial, período e direção de ondas que atingem 61 pontos distintos do litoral do país. Os atributos simulados são gerados a partir de dados de ventos de superfície (10 metros acima do mar). “Calibramos o modelo com base na climatologia das ondas dos últimos 30 anos, de 1979 a 2010. Os ventos de superfície foram calculados a partir de um esquema matemático conhecido como assimilação de dados. Este mistura observações e resultados de modelos com resolução temporal de uma hora e espacial de 0,3125 grau”, explica o coordenador do projeto Valdir Innocentini, do Inpe. O SIMCos faz parte do projeto temático da FAPESP “SMCos: sistema de monitoramento e estudos de processos costeiros”. Iniciado em 2007, o estudo contou com a participação de geólogos, oceanógrafos, meteorologistas, físicos e matemáticos. Um website, em fase de testes, foi criado pela equipe para disponibilizar ao público em tempo real as simulações geradas pelo sistema para os próximos dias.
Ampla cobertura
O diferencial do SIMCos não reside na criação do modelo matemático em si, pois este é amplamente conhecido pelos oceanógrafos. A novidade do projeto é a implementação dessa modelagem em um sistema que prevê e monitora o movimento e a altura das ondas em diversos pontos ao longo de toda a costa brasileira. Outro destaque é a simulação e o monitoramento da altura potencial da onda nos pontos analisados. Este cálculo mostra o fluxo de energia presente, um produto do quadrado da altura pelo tempo entre a passagem de dois picos consecutivos de ondas. O pesquisador do Inpe afirma que, muitas vezes, ondas que são baixas em alto-mar, se possuírem grande altura potencial, tornam-se altas quando atingem regiões próximas à costa, provocando a movimentação de sedimentos com efeitos erosivos. Isso representa um perigo para os banhistas e navegantes.
O sistema brasileiro contempla a simulação da energia contida nas ondas que atingirão determinado litoral nos próximos cinco dias, em intervalos de três horas. O SIMCos apresenta ainda gráficos que mostram a probabilidade de se ter ondas entre 0,5 e 6 metros de altura em cada um dos 61 pontos analisados.

Essas regiões que integram o sistema foram selecionadas de forma a contemplar toda a costa brasileira. Segundo Innocentini, rodar o modelo diariamente para todo o litoral do país seria inviável por causa da elevada necessidade de processamento computacional. Em alto-mar, acima de 100 metros de profundidade, modelos matemáticos conseguem prever o movimento das ondas continuamente ao redor do globo. “Já em águas rasas, a velocidade das ondas diminui e a física envolvida no processo se torna mais complexa, o que dificulta a criação de processos eficientes de simulação e exige o uso de computadores de alta performance para rodar tais modelos”, conta Innocentini. O SIMCos é executado atualmente no supercomputador Robura, que custou R$ 200 mil e conta com 120 processadores, no Inpe em São José dos Campos.
Próximas etapas
Os dados sobre ventos de superfície que abastecem o SIMCos foram extraídos de modelos atmosféricos, pois não há equipamentos que realizem tal medição ao longo da costa brasileira. Innocentini explica que isso não enfraquece as informações geradas pelo sistema por duas razões. Uma delas é que esses modelos atmosféricos possuem um elevado nível de precisão nos dados produzidos. A segunda razão é que os pesquisadores brasileiros compararam os resultados do SIMCos com informações sobre altura de ondas provenientes de satélites, boias e modelos matemáticos consolidados que analisam processos costeiros no oceano Atlântico Norte, obtendo similaridade de dados em ambos os casos. O próximo passo da pesquisa é combinar alguns dados gerados pelo SIMCos com o modelo hidrodinâmico (MOHID) de circulação costeira, desenvolvido pelo Instituto Superior Técnico (IST), em Portugal. Este simula as correntes marítimas mais próximas à costa, as marés, o transporte de sedimentos e a erosão. O uso combinado desses sistemas permitirá a avaliação, por exemplo, do impacto de empreendimentos humanos no transporte de sedimentos em áreas costeiras. Eventuais ondas gigantes podem modificar de forma severa a costa de uma região. Ao longo do tempo, entretanto, outras correntes vão reconstruir gradativamente a área afetada. “Se ocorre alguma interferência humana, como a construção de um porto ou molhes, o fluxo das correntes reconstrutoras pode ser interrompido e os sedimentos daquela região não serão mais recuperados. Nosso modelo pode apontar esses casos”, explica Innocentini. O SIMCos, aliado ao MOHID, pode ser empregado ainda na análise do impacto de fenômenos climáticos como o El Niño e na alteração do nível médio do mar sobre as ondas e regiões costeiras do Brasil.

terça-feira, 12 de março de 2013

Estudo analisa ambiguidades na obra de Aluísio Azevedo


Por Karina Toledo
Agência FAPESP – O Mulato, de Aluísio Azevedo, é um livro de título coletivo. Não faz menção a um personagem ou a uma situação específica, mas a toda uma categoria humana muito importante para a compreensão do processo de formação do Brasil. A análise é do sociólogo Rodrigo Estramanho de Almeida no livro A realidade da ficção. Ambiguidades literárias e sociais em ‘O Mulato’ de Aluísio Azevedo, que será lançado no dia 15 de março pela Alameda Casa Editorial. O ponto de partida do professor e pesquisador é o segundo livro de Aluísio Azevedo, O Mulato, por meio do qual analisa as contradições que marcaram toda a trajetória literária do escritor maranhense, cuja obra costuma ser dividida pela crítica em duas categorias: a dos romances engajados, recheados de crítica social, e a das novelas folhetinescas.
“Essa ambiguidade permanece ao longo de toda a carreira de Aluísio. O próprio escritor deixou claro, em correspondências e textos de jornais, que tinha consciência e sofria com isso. Mas eu tento mostrar que há também um fluxo de continuidade em suas obras”, disse Estramanho de Almeida à Agência FAPESP.
Segundo o pesquisador, a crítica social está presente mesmo nos livros considerados românticos. Por outro lado, O Mulato – considerado o abre-alas do Naturalismo no Brasil – está ambientado em uma história com características do Romantismo. “Embora o livro possua elementos considerados típicos do Naturalismo, a construção da narrativa é, do ponto de vista formal, próxima à do Romantismo. É um autor de difícil classificação”, afirmou. A ambiguidade presente na ficção também estava presente na vida real de Aluísio Azevedo, contou Estramanho de Almeida. 

“Ele trabalhou muito ao longo da vida para viver de literatura. Foi um autor combativo, que defendia os ideais republicanos e flertava com o abolicionismo. Também criticava duramente o clero e sua relação com o governo imperial. Mas, no fim da vida, abandonou a literatura para se dedicar ao serviço público e trabalhar para o Estado que tanto criticou”, contou. Além de colocar em relevo as vicissitudes enfrentadas pelo escritor para viver de literatura, Rodrigo busca também definir o lugar ocupado por Aluísio Azevedo no pensamento social brasileiro. “Aluísio está imerso em um momento de profunda transformação da sociedade brasileira. O aparecimento do ideário republicano e da doutrina Positivista tem impacto no comportamento, nas artes e no pensamento político e social. Além disso, transformações técnicas e econômicas, com o café se tornando o principal produto do país, modificaram a forma de as pessoas pensarem o futuro, o presente e o passado. Há um conteúdo sociológico interessantíssimo na obra de Aluísio Azevedo, mas algumas questões podem passar despercebidas se a análise se prender unicamente ao aspecto formal do Naturalismo”, afirmou Estramanho de Almeida. 
O livro, que contou com auxílio publicação da FAPESP, é resultado da pesquisa de mestrado realizada por Rodrigo Estramanho de Almeida na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), sob orientação do professor Miguel Wady Chaia. O pesquisador, no entanto, vem se dedicando ao estudo da obra de Aluísio Azevedo há mais de cinco anos, tendo escrito em 2007 uma análise de O Cortiço (leia mais emagencia.fapesp.br/6617).  O Cortiço é uma obra da fase madura de Aluísio. Já O Mulato é seu segundo livro. Foquei agora a análise no início da carreira para compreender quais elementos já estavam presentes em seu campo semântico e na sua maneira de escrever sobre a realidade”, contou. Atualmente, Rodrigo Estramanho de Almeida é professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e pesquisador no Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política (Neamp) da PUC-SP.
A realidade da Ficção 

Autor: Rodrigo Estramanho de Almeida 
Lançamento: 15 de março de 2013, na Martins Fontes Paulista, Av. Paulista, 509, das 19h às 22h 
Preço: R$ 40 
Páginas: 201

Mais informações: www.alamedaeditorial.com.br

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Raios cósmicos são criados em supernovas

15/02/2013
Por Heitor Shimizu, de Boston Agência FAPESP 

Raios cósmicos soam como itens típicos de filmes ou de livros de ficção científica, mas são ocorrências bem triviais. Estão em toda a galáxia e chegam à Terra de todos os lados, acertando a superfície do planeta e tudo o que nela se encontra. Agora, uma nova pesquisa acaba de confirmar a origem desse fenômeno. Os raios cósmicos nascem como resultado das violentas explosões de estrelas gigantes conhecidas como supernovas. A conclusão é de um estudo anunciado nesta quinta-feira (14/02), durante a reunião anual da American Association for the Advancement of Science (AAAS), em Boston, nos Estados Unidos. A pesquisa foi conduzida por um grupo internacional de cientistas, que analisou quatro anos de dados obtidos por meio do telescópio espacial de raios gama Fermi, da Nasa. É a primeira evidência considerada inequívoca da origem dos raios cósmicos. Os resultados da pesquisa também foram publicados na nova edição da revista Science. Os cientistas identificaram sinais de duas supernovas antigas (a W44, a 5 mil anos-luz da Terra, e a IC 443, a 10 mil anos-luz), cujas ondas de choques produzidas por suas explosões aceleraram prótons a velocidades próximas à da luz, transformando as partículas naquilo que se convencionou chamar de raios cósmicos. De acordo com o líder do estudo, o astrofísico alemão Stefan Funk, da Universidade Stanford e do Instituto Kavli para Partículas Astrofísicas e Cosmologia do Departamento de Energia dos Estados Unidos, quando esses prótons carregados de energia se chocam com prótons estáticos em meio a gás ou poeira estelar, o resultado é a produção de raios gama com características distintas. “Raios cósmicos não são exatamente raios, mas basicamente prótons. No entanto, não são todas as partículas subatômicas aceleradas em uma supernova que se transformam em raios cósmicos, e sim uma pequena parte”, disse Funk. De acordo com o cientista, prótons compõem mais de 90% dos raios cósmicos que atingem a atmosfera terrestre na forma de duchas de partículas, produzindo radiação. “Eles nos acertam o tempo todo, mas não fazem mal e correspondem a uma ínfima parte da radiação no planeta. Durante a história do Sistema Solar, porém, essas partículas têm sido muito importantes, tendo influenciado a evolução da galáxia”, disse Funk. 



“Uma característica que acho especial nos raios cósmicos é que eles têm origem a partir das maiores explosões em nossa galáxia, que aceleram as menores das partículas.” 

Píons 

Os cientistas há anos estipulavam que as duas fontes mais prováveis para a produção de raios cósmicos seriam explosões de supernovas na Via Láctea ou jatos de energia derivados de buracos negros além da galáxia. Isso por causa da dimensão dos fenômenos, uma vez que, para lançar partículas por toda a galáxia, a fonte teria que ter uma energia suficiente para tanto. Mas até o momento não haviam sido encontradas evidências que comprovassem essas suspeitas. A explosão estelar conhecida como supernova é capaz de irradiar energia equivalente à que o Sol emitirá durante toda a sua existência. As ondas de choque de uma supernova aceleram os prótons até os transformarem em raios cósmicos, em um processo no qual os prótons são presos nas regiões de choque – que se aceleram cada vez mais – por campos magnéticos. “As energias desses prótons estão muito além do que os maiores aceleradores de partículas da Terra, como o LHC, são capazes de produzir”, disse Funk. As colisões entre os prótons cada vez mais rápidos e prótons que se movem bem mais lentamente – e que ocorrem em nuvens de poeira e gás – levam à formação de partículas neutras conhecidas como píons. Essas partículas subatômicas – descobertas na década de 1940 pelo brasileiro Cesar Lattes, o italiano Giuseppe Occhialini e o britânico Cecil Powell –, por sua vez, decaem em raios gama, uma forma de luz altamente energética. E foi justamente esse decaimento com sua assinatura específica em raios gama que pode ser identificado por telescópios espaciais como o Fermi e comprovou a origem dos raios cósmicos. “Até agora, tínhamos apenas cálculos teóricos e o senso comum para nos guiar na ideia de que os raios cósmicos têm origem em supernovas. A detecção direta das assinaturas do decaimento dos píons em restos de supernova fecha o circuito, ao fornecer evidências observacionais de um componente significativo dos raios cósmicos”, disse Jerry Ostriker, da Universidade Columbia, também envolvido na descoberta. Na próxima etapa da pesquisa, o grupo tentará compreender os detalhes do mecanismo de aceleração e as energias máximas com que a explosão de uma supernova podem acelerar prótons. “É interessante destacar que essa descoberta ocorre no momento em que celebramos o 100o aniversário da descoberta dos raios cósmicos”, disse Roger Blandford, diretor do Kavli Institute, que participou da análise dos dados obtidos no Large Area Telescope do Fermi. O artigo Detection of the Characteristic Pion-Decay Signature in Supernova Remnants pode ser lido por assinantes da Revista Science

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Projeto recupera acervo da Unicamp com sons dos animais


Por Elton Alisson




Jacques Vielliard, 
Agência FAPESP – Um dos maiores acervos do mundo de sons emitidos pelos animais – como o canto dos pássaros, o coachar dos sapos ou o cricrilar dos insetos – pertence à Fonoteca Neotropical Jacques Vielliard, do Instituto de Biologia (IB) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Muitas das vocalizações dessa coleção iniciada na década de 1960, no entanto, não dispõem de informações essenciais para os biólogos interessados em estudar o comportamento animal – como a temperatura e o índice pluviométrico no momento em que o som foi captado. Um estudo, realizado no Instituto de Computação (IC) da Unicamp, com apoio de Bolsa da FAPESP, pretende enriquecer as informações sobre as vocalizações reunidas na fonoteca, com dados climáticos e ambientais do dia, hora e local em que elas foram registradas. “Percebemos que, pelo fato de muitos registros da fonoteca serem antigos, diversas informações importantes sobre eles estavam faltando”, disse Daniel Cintra Cugler, autor do estudo, à Agência FAPESP.
Boa parte dos registros foi feita a partir dos anos 1960 pelo ornitólogo francês Jacques Vielliard, falecido em 2010, que era professor da Unicamp e dá nome à fonoteca. Segundo Cugler, a escassez de recursos tecnológicos da época dificultava o registro dos fatores climáticos que influenciam o comportamento animal no momento da captura dos sons. As vocalizações dos animais podem variar, por exemplo, com a temperatura, a estação do ano e a ausência ou presença de chuva. Os resultados do estudo poderão ajudar biólogos a fazerem análises mais precisas do comportamento de animais com base nos sons e a estabelecer estratégias de conservação de espécies em risco de extinção. “Os biólogos que fizeram as coletas em campo gravaram o som de um animal, mas provavelmente não tinham um termômetro para medir a temperatura do ar no momento. Por isso, só mencionaram o local onde o som foi registrado, sem informar, além da temperatura, a altitude do local, por exemplo”, explicou Cugler.

Ajuda de outras fontes
A fim de recuperar esses dados, Cugler começou a desenvolver um sistema no qual, ao dar as coordenadas do local, dia e horário em que a vocalização de um animal foi coletada, é possível obter da Nasa, a agência espacial norte-americana, informações como temperatura e velocidade do vento naquele instante. Os satélites da agência espacial registram há décadas imagens do globo terrestre. Divulgadas publicamente na internet, em um sistema que funciona 24 horas, as imagens possuem filtros com informações como os índices de raios ultravioleta (UV), umidade do solo e cobertura de vegetação de um determinado local no dia e horário em que a imagem foi capturada. Ao cruzar as informações de data, horário e localização de um registro de vocalização da fonoteca com os dados fornecidos pela Nasa, é possível obter uma enorme lista de variáveis climáticas da época. “Também podemos obter dados adicionais do Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais] e da Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária] para melhorar ainda mais o conteúdo das variáveis climáticas”, disse Cluger. A partir da lista de variáveis climáticas obtidas dessas instituições, os pesquisadores envolvidos no projeto separam as informações importantes e atualizam os dados do acervo. “Temos que tomar muito cuidado com o que é adicionado a fim de preservar o histórico dos dados originais”, afirmou Cugler. O pesquisador encontra-se atualmente nos Estados Unidos, onde realiza parte do estudo na Universidade de Minnesota em colaboração com um grupo de pesquisadores especializados em dados espaciais. Além de associar as coordenadas dos registros de vocalização com o índice pluviométrico e a temperatura – as variáveis climáticas que mais influenciam o comportamento dos animais –, os pesquisadores também pretendem adicionar informações sobre outros fatores como, por exemplo, os abalos sísmicos eventualmente ocorridos na época, que estimulam a vocalização de determinados animais, como os elefantes. “O propósito da pesquisa é fazer uma análise espacial dos registros de vocalizações de animais que compõem a fonoteca”, disse Cugler. “Se conseguirmos correlacionar o ponto onde o registro foi coletado com as variáveis ambientais, os biólogos poderão fazer pesquisas melhores e de forma mais rápida”, afirmou.
e-Science
O trabalho de Cugler integra uma série de iniciativas de aprimoramento da Fonoteca, realizadas nos últimos anos sob a coordenação da professora Claudia Bauzer Medeiros, do IC da Unicamp, que orienta o trabalho de Cugler, e de Luís Felipe de Toledo Ramos Pereira, pesquisador colaborador do Museu de Zoologia do IB e um dos curadores do acervo. Pereira realiza atualmente um projeto, no âmbito do programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes da FAPESP, e uma pesquisa em conjunto com cientistas da Universidade de Michigan que é apoiada por meio de um acordo entre a FAPESP e a National Science Foundation (NSF). Resultado de uma cooperação entre pesquisadores do IC e do IB da Unicamp, as iniciativas de aprimoramento da Fonoteca visam recuperar e melhorar o gerenciamento, compartilhamento e enriquecimento dos dados da coleção por meio do uso de ferramentas computacionais. E integram um projeto, apoiado pela FAPESP por meio de um acordo com a Microsoft Research. “Esse tipo de trabalho exemplifica o que se chama de e-Science: a pesquisa cooperativa entre cientistas de computação e pesquisadores de outras áreas do conhecimento para que estes desenvolvam seus trabalhos de forma melhor, mais rápida ou até mesmo diferente”, disse Cugler. A maior parte das informações do acervo – composto por cerca de 40 mil vocalizações de todos os grupos de vertebrados e de alguns grupos de invertebrados, como insetos e aracnídeos – estava armazenada em planilhas eletrônicas. Por meio do projeto, os pesquisadores começaram nos últimos anos a transferir as informações para um banco de dados, a fim de facilitar a recuperação e o gerenciamento deles, e a digitalizar os registros – gravados, em grande parte, em fitas magnéticas.
Na internet
No fim de 2011, foi colocado no ar um website (proj.lis.ic.unicamp.br/fnjv) com mais de 11 mil vocalizações do acervo já digitalizadas, com o objetivo de compartilhá-las e disponibilizá-las para a comunidade científica da área e interessados nesse “gênero musical”. O site já foi acessado por usuários de mais de 60 países. “Os registros de vocalizações disponibilizadas no site ainda não possuem as informações climáticas que estamos recuperando. Em breve pretendemos atualizar a base de dados com novas informações”, afirmou Cugler. Atualmente, o website permite o acesso às vocalizações para pesquisadores autorizados e o acesso público às informações gerais relacionadas a elas, como o nome da espécie e o local, dia e horário em que o som foi capturado ou as condições de gravação. Os pesquisadores e o público em geral também podem solicitar aos curadores do acervo, por meio de um formulário eletrônico, os sons digitalizados. Além de gravações de sons de animais mais comuns, como pardal e sabiá-laranjeira, o acervo possui vocalizações mais raras, que poucas pessoas conseguiram gravar na natureza, como as de uma onça-parda. “O acervo preservou vocalizações gravadas em lugares onde as condições ecológicas hoje não são mais as mesmas. Dessa forma, ele conserva uma parte preciosa do passado da biodiversidade”, avaliou Cugler.