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sábado, 26 de abril de 2014

Futebol foi refém de interesses entre FIFA e Comitê Olímpico

Por Antonio Carlos Quinto - acquinto@usp.br

Interesses econômicos e ideológicos, e uma disputa de poder entre o Comitê Olímpico Internacional (COI) e a Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA), podem ser apontados como fatores fundamentais para a criação da Copa do Mundo. Afinal, o torneio que acontecerá este ano no Brasil, teve sua primeira edição em 1930, no Uruguai, como resultado de uma disputa pelo controle do futebol entre as duas entidades.
“Uma das principais discussões entre FIFA e COI surge em relação ao amadorismo no esporte”, conta o professor de educação física Sérgio Settani Giglio, que defendeu na Escola de Educação Física e Esportes (EEFE) da USP a tese de doutorado COI x FIFA: a história política do futebol nos jogos olímpicos.

Segundo ele, o objetivo inicial da pesquisa era entrevistar atletas brasileiros que participaram de edições dos jogos olímpicos, na modalidade futebol. “Busquei jogadores para saber de suas dificuldades, suas histórias e trajetórias, os que ficaram famosos e os desconhecidos que participaram dos Jogos Olímpicos entre os anos de 1952 e 2008”, conta. A ideia era traçar um perfil destes atletas para compor um estudo maior, coordenado pela professora Kátia Rubio, da EEFE, sua orientadora no doutorado.

No entanto, durante as entrevistas, que foram cerca de 90 com os atletas do futebol, Giglio percebeu um traço comum. “Muitos falaram da condição de ‘amadores’ como sendo um empecilho para ter um contrato com um clube profissional”, conta. Foi quando a questão da definição de “ser amador” lhe chamou a atenção, o que o fez mudar os rumos do estudo.
Embate histórico

Na busca de mais informações sobre a questão, o pesquisador consultou boletins olímpicos do COI. E já no primeiro, datado de 1894, quando da formação da entidade, Giglio encontrou as primeiras discussões sobre o que é ser ou não amador. Além de documentos da época, o pesquisador selecionou para seu doutorado 9 entrevistas, sendo 8 de atletas e 1 com João Havelange, ex-presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e da FIFA.

Na definição do COI, segundo o pesquisador, o futebol deveria ter a participação de jogadores amadores. “O requisito favorecia a prática do esporte pela aristocracia, e os jogadores não recebiam nenhum tipo de recompensa”, lembra Giglio. Porém, na década de 1920, o futebol ganhava corpo, principalmente com a implantação do profissionalismo de clubes e com a participação de trabalhadores. “De outro lado, a FIFA era favorável ao pagamento dos jogadores, mesmo que pelo tempo de afastamento que durassem os jogos. Nas entrevistas, alguns jogadores relataram a prática dos ‘contratos de gaveta’, em que assinavam um documento de compromisso de profissionalização após a disputa da olimpíada”.

Mas o futebol já se mostrava altamente lucrativo. “Esse embate levou a um rompimento, em 1928, e fez com que a FIFA organizasse, em 1930, a primeira Copa do Mundo, que reuniu jogadores profissionais e amadores”, lembra o pesquisador. “De lá para cá, alguns acordos foram estabelecidos no decorrer do tempo, como a idade limite de 23 anos para o jogador disputar a olimpíada, sendo a restrição mais recente”, descreve. A tensão entre as entidades já não é grande, visto que a FIFA participa da organização do futebol no COI. “Mas fica claro o embate político financeiro e o controle da FIFA no futebol. A entidade criou torneios sub-20 e sub-17 como forma de alimentar nos atletas o desejo de se disputar uma Copa”, analisa o pesquisador.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Consórcios internacionais buscam astrônomos e financiamento brasileiro

Agência FAPESP – A produção científica brasileira na área de astronomia tem crescido nos últimos anos. O número de artigos científicos publicados anualmente subiu de 150, em 1995, para 230 em 2010. Segundo pesquisadores da área, parte desse incremento na produção científica se deve à participação do Brasil em consórcios internacionais que garantem o acesso a instrumentos de observação competitivos.
As principais iniciativas nesse sentido foram a participação em observatórios como o Gemini, cujas operações iniciaram em 2004 com dois telescópios “gêmeos”, um nos Andes chilenos e outro no Havaí, e o Southern Observatory for Astrophysical Research (SOAR, na sigla em inglês), inaugurado nos Andes em 2005.
O Brasil conta com 6% de participação nas observações do Gemini, cujos telescópios têm espelhos principais com 8,1 metros de diâmetro. No SOAR, com espelho de 4,2 metros de diâmetro, a participação brasileira é de 30%. A participação de pesquisadores brasileiros nos dois observatórios se dá com financiamento da FAPESP e de outras agências de fomento à pesquisa no país.
“O aumento no número de artigos publicados por astrônomos brasileiros nos últimos anos tem relação absolutamente direta com a participação no Gemini e no SOAR”, disse João Steiner, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo (USP), à Agência FAPESP.
“Estávamos estagnados por quase uma década em termos de publicação de artigos científicos e de formação de mestres e doutores na área e, quando o Gemini e o SOAR entraram em operação, esses dois indicadores cresceram em um ritmo bastante expressivo”, afirmou.
Atualmente a comunidade de pesquisa da área está sendo convidada para participar e para ajudar a financiar dois dos maiores projetos de construção de megatelescópios em andamento no mundo: o Giant Magellan Telescope (GMT), projetado por um consórcio de instituições dos Estados Unidos, Austrália e Coreia do Sul, e o European Extremely Large Telescope (E-ELT), planejado pelo Observatório Europeu do Sul (ESO, na sigla em inglês).
Ambos também serão construídos no Chile em razão de o céu do Hemisfério Sul ser considerado muito mais rico, em termos de possibilidades de observações astronômicas, do que o do Hemisfério Norte, além de haver disponibilidade de lugares adequados para fazer observações, como a cordilheira dos Andes, no norte do Chile.
Com início da construção previsto para julho de 2014 em Cerro Las Campanas, o GMT será composto por sete espelhos segmentados redondos, com 8,4 metros de diâmetro cada um, que – reunidos como as pétalas de uma flor em torno de seu botão central – formarão uma superfície óptica com uma abertura de 24 metros de diâmetro. O GMT está previsto para entrar em operação em 2019.
O projeto está orçado em US$ 690 milhões (cerca de R$ 1,6 bilhão), com previsão de aumento de US$ 30 milhões a cada ano que o início da construção for adiado. Por isso, os idealizadores têm pressa em obter a aprovação de instituições que já manifestaram interesse em participar do projeto. Entre elas estão as universidades do Arizona, do Texas, de Chicago, e Texas A&M – todas nos Estados Unidos – e da Universidade Nacional da Austrália (ANU).
Também já confirmaram interesse no projeto o Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian e o Instituto Carnegie para Ciência, ambos dos Estados Unidos, além do Instituto de Ciências Astronômicas e Espaciais da Coreia do Sul e do Astronomy Australia Limited (AAL).
“O desafio mais urgente e crítico para o GMT hoje é obter financiamento para a fase de construção”, contou Wendy Freedman, presidente do consórcio, durante um workshop sobre o projeto, realizado nos dias 13 e 14 de novembro, na sede da FAPESP, em São Paulo.
O evento faz parte de um processo de avaliação pela FAPESP de uma solicitação de financiamento para apoiar a participação no GMT feita por pesquisadores de universidades e instituições de pesquisa no Estado de São Paulo. Para a análise da proposta, após a obtenção de pareceres de assessoria, ficou clara a necessidade de se aferir o interesse da comunidade de pesquisa paulista na área, bem como o potencial para o envolvimento de empresas do Estado.
Pela proposta, a FAPESP teria 4% de participação no projeto, o que asseguraria aos pesquisadores de São Paulo um tempo cativo de observação no telescópio também de 4% por ano. O financiamento solicitado à FAPESP é de US$ 40 milhões.
Os astrônomos de São Paulo também teriam assento no conselho do consórcio, direito a voto nas decisões sobre o projeto e poderiam participar da construção do telescópio – que inclui desde a construção de partes do telescópio, como o domo, que terá cerca de 4 mil toneladas de aço, até o desenvolvimento de instrumentação científica.
No início de novembro, engenheiros do GMT realizaram um “Dia da Indústria”, na FAPESP, para apresentar às empresas brasileiras potenciais fornecedoras de equipamentos e prestadoras de serviços as possibilidades de participação na construção do telescópio.
“Não temos dúvida da importância científica do GMT. Mas temos que ter claro o papel que será desempenhado por pesquisadores do Estado de São Paulo e saber exatamente quais as garantias e riscos, além de quais dados e tecnologias poderão ser criados por meio desse projeto internacional”, disse Hernan Chaimovich, assessor especial da Diretoria Científica da FAPESP, na abertura do segundo evento, no dia 13 de novembro.
Adesão do Brasil ao ESO
O ESO, por sua vez, há alguns anos empenha esforços para que o governo do Brasil ratifique sua adesão ao consórcio astronômico europeu e participe da construção do megatelescópio E-ELT e de outros projetos da instituição.
Com o início da construção também previsto para 2014, o telescópio situado em uma montanha na região de Cerro Armazones, no Chile, e com um espelho com 39 metros de diâmetro, deverá ser o maior entre os chamados de “extremamente grandes” (ELT, ou “extremely large telescopes”). A conclusão da obra está prevista para 2023.
O espelho principal deverá ser composto por cerca de 800 segmentos hexagonais, com 1 metro cada, que formarão uma colmeia de espelhos com capacidade de capturar 15 vezes mais luz do que o maior telescópio em operação hoje, o Gran Telescopio Canarias, situado nas Ilhas Canárias, com 10,4 metros de diâmetro.
Para participar da construção do telescópio, no entanto, o Brasil precisa ratificar sua adesão ao consórcio astronômico europeu, que está em avaliação no Congresso Nacional.
“Ao aderir ao ESO, o Brasil tem a oportunidade de se juntar a um programa de pesquisa astronômica de longa duração que talvez seja o melhor existente hoje no mundo e no qual engenheiros, astrônomos e empresas de alta tecnologia têm a chance de trabalhar juntos”, disse o holandês Tim de Zeeuw, diretor geral da organização astronômica europeia, à Agência FAPESP, durante visita realizada por um grupo de jornalistas brasileiros às instalações do ESO no Chile, no início de novembro, a convite da organização.
Apesar de ainda não ter se credenciado oficialmente, o Brasil já é tratado e citado como membro oficial em diversos materiais de divulgação do consórcio astronômico europeu – como, por exemplo, em sua página na internet – e há diversas referências ao país nas instalações do ESO no Chile.
A bandeira brasileira, por exemplo, está hasteada ao lado das flâmulas dos 14 países europeus que já são membros oficiais do consórcio, na portaria do observatório do ESO em Cerro Paranal – uma montanha com 2,6 mil metros de altitude, localizada no deserto do Atacama, nas proximidades de Cerro Armazones.
A paisagem é tão semelhante a Marte que, na primeira semana de outubro, a Agência Espacial Europeia (ESA) realizou, próximo ao observatório, um teste com um robô – chamado Bridget – para uma futura missão exploratória ao planeta vermelho.
O país também é mencionado em um local bem menos visível do observatório: um túnel subterrâneo com as cores verde e amarela, localizado no Centro de Controle do telescópio Very Large Telescope (VLT), batizado de “Avenida Brasil”, em alusão ao nome de uma telenovela brasileira exibida atualmente no Chile.
Os astrônomos brasileiros têm realizado observações de forma esporádica nos telescópios do consórcio europeu. “As propostas de pedido de tempo de observação no VLT do Brasil não têm sido constantes. Do total de quase mil propostas que recebemos por ano, só 2% são de colegas brasileiros”, contou Claudio de Figueiredo Melo, potiguar que está no ESO no Chile desde 2003 e que em abril foi nomeado a um dos cargos mais importantes na hierarquia do consórcio de pesquisa astronômica: o de diretor científico.
A fim de tentar acelerar a integração da comunidade científica de astrônomos brasileiros com o ESO, em agosto, Melo e o paulista Dimitri Alexei Gadotti – que realizou doutorado e pós-doutorado com Bolsa da FAPESP e integra a equipe permanente de astrônomos do consórcio – visitaram algumas universidades e instituições de pesquisa no Brasil para apresentar as possibilidades de pesquisa nos telescópios do observatório chileno e explicar como devem ser formatadas as propostas de pedido de tempo de observação.
O ESO também realizou em 2011 e este ano o “Dia da Indústria”, com o objetivo de apresentar a empresas brasileiras oportunidades de desenvolvimento de instrumentação científica para os telescópios. E, recentemente, aprovou um projeto para o desenvolvimento do primeiro instrumento brasileiro para ser integrado a um dos telescópios do VLT de Cerro Paranal.
O instrumento, denominado Cubes, está sendo construído por pesquisadores do IAG, da USP, em colaboração com colegas do Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA), em Minas Gerais.
Cubes é a sigla em inglês de Cassegrain U-band Brazilian-ESO Spectrograph e consiste em um espectrógrafo de baixa a média resolução, especializado em observações em comprimento de onda no ultravioleta, que será voltado a estudos sobre a composição química das galáxias. O projeto é financiado, inicialmente, pelo próprio LNA e pelo IAG.
Atualmente, os pesquisadores brasileiros envolvidos no projeto fazem ajustes no equipamento, em colaboração com engenheiros do ESO, para aumentar seu desempenho e inserir alguns componentes.
“O projeto está caminhando muito bem e vamos apresentá-lo nessa segunda etapa, de implementação, em diversas conferências com a participação de astrônomos e engenheiros do ESO que devem ocorrer nos próximos meses”, disse Beatriz Barbuy, professora do IAG e coordenadora do projeto.
A inserção do equipamento em um dos telescópios do ESO, no entanto, dependerá da ratificação do Brasil como membro efetivo do consórcio europeu de pesquisa astronômica.
Caso o Brasil não confirme sua integração ao ESO, o projeto do espectrógrafo poderá ser descartado ou transferido para um dos 14 países europeus membros do consórcio de pesquisa astronômica, disseram representantes do ESO. “No dia em que a adesão do Brasil for ratificada, o projeto de desenvolvimento do Cubes avançará”, disse Melo.
Experiência brasileira
Tanto no caso do desenvolvimento do Cubes como na construção de instrumentação científica para o GMT, a ideia é aproveitar a experiência brasileira nessa área, acumulada pela participação de pesquisadores de universidades do Estado de São Paulo com instituições de pesquisa do país, no desenvolvimento de equipamentos para telescópios.
Por meio de projetos apoiados pela FAPESP, grupos de pesquisadores do IAG, em parceria com instituições de pesquisa do país, desenvolveram um espectrógrafo de alta resolução e umimageador para o SOAR, entre outros instrumentos científicos.
“O SOAR nos permitiu iniciar o desenvolvimento de instrumentação científica de classe mundial para telescópios”, disse Steiner. “Se queremos, no futuro, estar na fronteira do conhecimento em astronomia, temos que participar tanto do uso como do desenvolvimento de instrumentação científica para esses novos telescópios.” 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Produção literária brasileira no século 19 circulava pelo mundo


Por Elton Alisson
Agência FAPESP – Já no início do século 19 um leitor no Rio de Janeiro podia encomendar um livro recém-lançado em Paris, na França, e recebê-lo em 28 dias, que era o tempo que a obra necessitava para ser transportada por navio até o Brasil e que equivale, aproximadamente, ao mesmo prazo que empresas de comércio eletrônico estrangeiras, como a norte-americana Amazon, levam para entregar uma obra hoje no país quando não encomendada pelo sistema de correio expresso. Na mesma época, obras de autores brasileiros, como Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), foram traduzidas para o francês, o italiano, o latim e o russo, a exemplo do que ocorre atualmente com os livros mais lidos no mundo, que são lançados quase que simultaneamente em diferentes idiomas. Como os exemplos demonstram, a globalização da cultura não é um processo que se iniciou no século 20, com o advento das tecnologias de informação e comunicação. Mas remonta ao início do século 16 – quando espanhóis e portugueses começaram a viajar pelo globo – e se intensificou no século 19, quando os livros e impressos começaram a circular pelo mundo, criando uma forma especial de conexão entre as pessoas em diferentes partes do planeta, tal como a internet faz hoje. De modo a estudar o fenômeno sob uma perspectiva transnacional, pesquisadores do Brasil, Portugal, França e Inglaterra iniciaram um Projeto Temático, com apoio da FAPESP, com o objetivo de conhecer melhor os impressos e as ideias que circulavam entre os quatro países entre 1789 a 1914. No período, que ficou conhecido como o “longo século 19”, houve uma notável ampliação do público leitor e mudanças tecnológicas, como a ampliação da rede ferroviária europeia e o desenvolvimento dos navios a vapor, que facilitaram a divulgação e a circulação dos impressos pelas diferentes partes do globo.

Nessa época, quando os países começaram a se definir como nações que queriam se separar uma das outras, ao mesmo tempo em que o processo de integração ganhava força, livros brasileiros foram traduzidos para o francês e publicados na forma de folhetim em jornais em Paris e obras de autores franceses também fizeram o percurso inverso. “A tradução de livros na forma de folhetim fazia com que pessoas, em diferentes lugares do mundo, ficassem conectadas, porque liam mais ou menos ao mesmo tempo a mesma história nos jornais”, disse Marcia Azevedo de Abreu, professora do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenadora do projeto, à Agência FAPESP“Um capítulo de um livro recém-publicado na França era mandado por navio e traduzido no Brasil. Às vezes, o autor adoecia, por exemplo, e a tradução não podia sair aqui”, contou a pesquisadora.
Neste período também foram lançados livros e manifestos por intelectuais brasileiros, que estudaram em universidades de Portugal e da França e se tornaram membros de importantes instituições acadêmicas estrangeiras, como o Instituto Histórico de Paris. Durante a permanência na França, por exemplo, os brasileiros conheceram e estabeleceram relações com os intelectuais nativos, que lhes ajudaram a lançar publicações como a revista NiteróiNa revista, que circulou primeiramente em Paris e que para ser lida no Brasil era preciso importá-la, foi publicado pelo poeta brasileiro Gonçalves de Magalhães (1811-1882) o primeiro Manifesto Romântico Brasileiro.
Já a primeira tradução para o francês de O Guarani, de José de Alencar (1829-1877), foi publicada também em folhetim no século 19, sob o título Les filles du Soleil (As filhas do Sol), em um jornal lançado na França por um grupo de brasileiros para divulgar o Brasil no país europeu. “Algumas obras de grandes autores brasileiros também foram impressas primeiramente na França por Louis Auguste Garnier, que foi o maior editor brasileiro do século 19, porque era mais caro importar papel branco do que impresso no Brasil nesta época”, disse Abreu. “Além disso, era mais chique para os leitores brasileiros comprar um livro impresso na França, e as próprias editoras exploravam isso na publicidade, destacando que a obra havia acabado de chegar de Paris ou escrevendo na primeira página da obra que ela foi impressa na França”, destacou a pesquisadora. Por outro lado, de acordo com Abreu, assim que terminou a proibição de se imprimir publicações no Brasil, que vigorou até 1808, alguns livreiros, como o francês Paul Martin, começaram a publicar livros no Brasil e exportá-los para Portugal, onde Martin estava instalado, e que desempenhou um importante papel no processo de integração literária entre os países por meio das traduções. 

Como a grande referência no século 19, a França traduzia na época obras de todo o planeta para o francês, que era a língua que o mundo inteiro lia e partir da qual os países faziam as traduções para seus idiomas oficiais. Ao perceber que uma determinada obra lançada na França fez sucesso, os portugueses logo tratavam de traduzi-la para a língua portuguesa e a enviavam para o Brasil, possibilitando que não só as elites, que liam francês, pudessem ter acesso à obra. “O Brasil era a filial de muitos livreiros de Portugal, que eram muito ativos e traduziam muito rapidamente livros e impressos e enviavam para cá”, disse Abreu. “Mas não eram só os brasileiros que esperavam o que os estrangeiros mandavam para cá. Os estrangeiros também esperavam o que o Brasil mandava para o exterior”, ressaltou a pesquisadora.
Falso atraso e dependência cultural
Na avaliação da pesquisadora, as constatações feitas no primeiro ano do projeto de pesquisa contrariam o paradigma de que o Brasil esteve sempre atrasado culturalmente em relação aos outros países, e mais recebeu do que exerceu influência cultural. “A gente aprende que a França influencia culturalmente Portugal, que por sua vez influencia o Brasil, e que a influência cultural se esgota aqui. Mas temos observado que também há livros e impressos que saíram do Brasil e foram para estes países e que as trocas entre eles eram desiguais, mas recíprocas”, disse Abreu. A primeira história da literatura brasileira, por exemplo, foi escrita pelo francês Ferdinand Denis (1798-1890), que publicou em 1826 um livro na França intitulado O resumo da história literária do BrasilJá um romance de Victor Hugo (1802-1885) foi publicado no Brasil, antes mesmo de ser lançado na França, graças a um contrato de exclusividade com o editor do autor francês, conforme uma notícia publicada no Jornal do Commercio no Brasil na época, alardeando que o mundo inteiro deveria estar com ciúmes do país pelo feito. “Nós vimos que essas conexões entre o Brasil e outros países já existiam muito antes e que não havia a ideia de atraso, de dependência e de influência cultural, que não estão bem colocadas”, disse Abreu.
“Não que o Brasil fosse o centro do universo no século 19. Mas não era tão ruim como estamos acostumados a pensar, e o país estava sincronizado com outros no tempo, do ponto de vista da leitura”, afirmou a pesquisadora. De acordo com Abreu, um dos fatores que contribuem para essa falsa percepção do atraso cultural do Brasil em relação ao mundo é que se costuma pensar que economia e cultura são indissociáveis. Como o país não era economicamente desenvolvido no século 19, se pressupunha que sua cultura também era atrasada e fortemente dependente e influenciada por outros países. “Uma das conclusões preliminares importantes deste projeto de pesquisa é que a economia e a cultura não são tão casadas assim. No mesmo país em que havia escravos e era economicamente dependente, circulavam livros que eram lidos ao mesmo tempo aqui e em Paris”, disse Abreu.
Continuidade da pesquisa
Os pesquisadores estão buscando identificar quais os editores que atuavam transnacionalmente e quantos e quais autores brasileiros tiveram obras traduzidas no século 19. A pesquisa está sendo realizada em bibliotecas, além de em arquivos dos editores, comerciais e de polícia do Brasil e dos três outros países participantes do projeto, em que é possível analisar, por exemplo, os contratos comerciais de livreiros realizados com brasileiros e quais editores se instalaram no país. De acordo com Abreu, o projeto deve ganhar maior impulso agora, após a realização da Escola São Paulo de Estudos Avançados sobre a Globalização da Cultura no século 19, que ocorreu no final de agosto no IEL e Universidade de São Paulo (USP), com apoio da FAPESP. O evento reuniu professores e estudantes de pós-graduação de diversos países, que poderão se integrar no projeto. “Nós estamos em fase de prospecção e estabelecimento de parcerias com pesquisadores da França, Portugal e Inglaterra, sendo que alguns já se conheciam e trabalharam juntos e outros não. E a Escola possibilitou trazer todos esses pesquisadores para passar uma semana juntos e ouvir as sugestões dos alunos, para afinar as referências”, disse Abreu. 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Livro aborda múltiplos aspectos da relação entre saúde e atividade física


Agência FAPESP – A prática de atividade física é considerada uma das mais importantes estratégias atuais para a promoção da saúde da população. No entanto, no Brasil, só nos últimos dez anos o assunto começou a ser explorado do ponto de vista científico. O livro Epidemiologia da atividade física, lançado recentemente, reúne ensaios de especialistas que abordam o estudo da prática de atividade física, incluindo aspectos históricos, critérios de mensuração e recomendações de prática de atividades físicas, as melhores práticas atuais de intervenção para promoção dessas atividades no Brasil e no mundo e sua importância na prevenção de doenças crônicas, entre outros temas. Organizado por Alex Antonio Florindo, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da Universidade de São Paulo (USP), e Pedro Curi Hallal, professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), o livro foi lançado durante o Congresso Brasileiro de Atividade Física e Saúde, realizado na cidade de Gramado (RS) em novembro de 2011.Florindo, que atua no curso de Ciências da Atividade Física da EACH-USP e na pós-graduação da Faculdade de Saúde Pública da USP, coordena atualmente o projeto Estudo de intervenções para a promoção das atividades físicas no Sistema Único de Saúde pela Estratégia de Saúde da Família”, apoiado pela FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular. Hallal atua na Escola de Educação Física da UFPel e na pós-graduação do Centro de Epidemiologia da mesma instituição. Segundo Florindo, o livro tem o objetivo geral de descrever o fenômeno populacional da prática de atividade física. “Nós propusemos a temática porque, no Brasil, não temos um livro que reúna os conhecimentos adquiridos nessa área com essa profundidade. Convidamos colaboradores de diferentes partes do país para estudar de forma detalhada esse fenômeno da prática de atividade física na população”, disse Florindo à Agência FAPESPFlorindo explicou que, depois de seu mestrado e doutorado – ambos concluídos na FSP-USP com bolsas da FAPESP –, coordenou o projeto Atividade física e sua relação com variáveis individuais e ambientais na população idosa do distrito de Ermelino Matarazzo da Zona Leste do município de São Paulo”Vários dos estudantes de iniciação científica e pós-graduação que participaram do projeto, com bolsas da FAPESP, tornaram-se pesquisadores da área e contribuíram com ensaios no livro. “Aquele projeto tinha o objetivo de verificar quais eram os fatores ambientais associados à atividade física na população adulta no bairro de Ermelino Matarazzo, onde se localiza a EACH-USP. Trabalhamos com várias temáticas, como validação de métodos para avaliar atividade física na população e os impactos dessas atividades na prevenção de doenças crônicas. Mais recentemente, a FAPESP apoiou outro projeto que nos permitiu estudar a promoção da atividade física. O livro segue essas linhas de pesquisa”, explicou.

terça-feira, 22 de março de 2011

SciELO classificada em 1º lugar no ranking mundial de portais de acesso aberto Webometrics


FAPESP - A biblioteca eletrônica SciELO Brasil foi classificada em 1º lugar no ranking mundial de portais de acesso aberto Webometrics, divulgado pelo laboratório Cybermetrics, grupo de pesquisa vinculado ao Conselho Superior de Pesquisas Científicas da Espanha.
Curiosamente, a SciELO Brasil não estava em primeiro lugar em nenhum dos quatro quesitos medidos no ranking: foi 2º tanto no item tamanho quanto no de presença no portal acadêmico Google Scholar, 3º em número de arquivos em formato pdf e 4º em visibilidade, que é a quantidade de links que remetem a páginas do portal. O somatório, contudo, rendeu-lhe a liderança.
“A consistência do SciELO prevaleceu sobre outros competidores”, disse Abel Packer, coordenador da biblioteca. A segunda posição coube ao portal HAL, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França. Coleções SciELO de outros países também saíram-se bem no ranking, caso do Chile (6º lugar) e Cuba (12º). A biblioteca SciELO de Saúde Pública, sediada no Brasil, desponta na 9ª posição. Outro destaque brasileiro é a coleção Brasiliana, da USP, em 24º lugar.
A SciELO Brasil, sigla para Scientific Electronic Library Online, abrange uma coleção selecionada de 221 periódicos brasileiros, publicados em acesso aberto na internet. Criada em 1997, é um programa especial da FAPESP, em parceria com o Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (Bireme) e com a participação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Atribui-se à biblioteca um papel importante na qualificação das revistas científicas brasileiras. Para ser admitido e depois se manter na coleção, cada periódico precisa cumprir uma série de exigências rígidas, em relação à qualidade de conteúdo, à originalidade das pesquisas, à regularidade da publicação, à revisão e aprovação por pares das contribuições publicadas e à existência de um comitê editorial de composição pública e heterogênea. Acesso ao Texto Completo em: SciELO no topo de ranking mundial