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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Desmatamento reduz tamanho de peixes em região amazônica

Por Antonio Carlos Quinto - acquinto@usp.br

Entre os diversos danos causados pelo desmatamento na Amazônia em virtude da expansão agrícola, uma pesquisa desenvolvida no Instituto de Biociências (IB) da USP mostra que houve diminuição no tamanho de algumas espécies de peixes. Para realizar o estudo dos Efeitos da conversão de florestas em áreas agrícolas sobre assembleias de peixes das cabeceiras do Rio Xingu, o ecólogo Paulo Ricardo Ilha Jiquiriçá coletou quase 4 mil peixes de 36 espécies diferentes na região de Canarana, no Mato Grosso, cidade conhecida como portal do Xingu. Ele conta que seus estudos tinham como objetivo inicial avaliar os efeitos do desmatamento e da construção de barragens sobre a fauna de peixes (assembleias). “Contudo, no decorrer da pesquisa percebemos que o tamanho corporal dos peixes nos riachos em áreas agrícolas era significativamente menor em comparação com os riachos em áreas de florestas”, conta.


Sob orientação do professor Luis Cesar Schiesari, do curso de Gestão Ambiental da Escola de Artes Ciências e Humanidades (EACH), e com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o cientista deu início às suas pesquisas no ano de 2011. Além dos estudos nos laboratórios do IB, Paulo passou cerca de 18 meses em pesquisas de campo, residindo em Canarana. Lá, em colaboração com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), o cientista realizou coletas em seis riachos, sendo três localizados em áreas de florestas e outros três em áreas agrícolas.
Nestas propriedades agrícolas é comum a degradação das matas ciliares e a construção de barragens que represam trechos dos riachos, seja para armazenar água para o gado ou para abastecer pequenas hidrelétricas. Paulo conta que a região já conta com mais de dez mil pequenas barragens. Os cursos d’água avaliados no estudo estão nas cabeceiras de rios afluentes que formam o Rio Xingu (rios Tanguro e Darro), no centro-leste do Mato Grosso. A região é uma das maiores produtoras de soja do País e está localizada no arco do desmatamento amazônico.


Redução de peso

diversas alterações na fauna de peixes foram observadas nos riachos em áreas agrícolas e relacionadas a alterações ambientais. Paulo cita como exemplo uma espécie de rivulídeo, parente dos “killifishes” de aquário, que mede menos de 4 centímetros (cm) e aumentou em abundância nos riachos agrícolas. “Isso ocorreu devido a alterações das características naturais dos riachos. Após o desmatamento, as margens desses córregos são invadidas por gramíneas (Brachiarias) que reduzem a profundidade e criam um ambiente onde os predadores dos rivulídeos não conseguem alcançá-los, o que permite sua proliferação”, conta.


Em contrapartida, espécies que eram comuns nos riachos desapareceram das represas. “Ao menos três espécies de pequenas ‘piabas’ que eram comuns em trechos de água corrente não foram encontradas em trechos represados”, conta.
Entretanto, a constatação que mais chamou a atenção foi a de que quatro das seis espécies mais abundantes nos riachos estudados diminuíram de tamanho (em massa), entre 44% e 57%, nas áreas agrícolas. “É provável que o aquecimento da água seja responsável, ao menos em parte, pela redução de tamanho dessas espécies” acredita.
Medições feitas em campo mostraram que nos riachos de florestas e ainda não alterados em suas características as temperaturas da água eram, em média, entre 24 graus Celsius (°C) e 26°C. “Já nos riachos em áreas agrícolas, nas horas mais quentes do dia, as temperaturas atingiram até 35°C”, descreve. Para testar essa hipótese, Paulo realizou um experimento em laboratório no Departamento de Fisiologia do IB em colaboração com o professor Carlos Arturo Navas Ianini.


Lá, foram criados peixes (da mesma espécie de rivulídeo citada) em temperaturas semelhantes às dos riachos agrícolas e de florestas. “Os peixes criados em temperatura semelhante às dos riachos agrícolas perderam massa, diminuindo de tamanho, enquanto os peixes criados em temperatura semelhante às dos riachos de florestas cresceram”. A pesquisa não investigou os mecanismos fisiológicos que levam à diminuição do tamanho dos peixes, mas constatou que a temperatura da água é um fator preponderante. Paulo ressalta que este pode ser o primeiro estudo a fazer a relação direta entre a redução de tamanho dos peixes e o aquecimento provocado pela conversão de florestas em áreas agrícolas. “É possível que isto esteja acontecendo ao longo de todo o arco do desmatamento amazônico e que venha a causar perdas de biodiversidade”.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Pelo de poodle é similar ao de carneiro e pode virar tecido

Os pelos de cães da raça poodle apresentam características idênticas à lã de carneiro, e podem ser utilizados pela indústria têxtil para fabricar tecidos. É o que mostra a dissertação de mestrado do pesquisador Renato Nogueirol Lobo, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP. Segundo Lobo, para produzir uma tonelada de fio, seriam necessários 600 quilos de pelo de poodle, sendo que essa quantidade poderia ser obtida por meio da tosa de cerca de 800 animais.

“Trata-se de uma alternativa para diminuir a quantidade de pelos descartados em pet shops por meio da reciclagem desses resíduos, que devem ter coleta especial”, justifica, ressaltando que “os fios poderiam ser usados para produzir qualquer tipo de roupa, mas o foco do projeto é reciclagem do pelo de cachorro para fazer roupa para pet.”De acordo com Lobo, a única diferença é que os pelos de poodle são fiáveis em fibra curta, entre 12 a 40 milímetros, e as de carneiro são fiáveis em fibra longa, entre 40 a 80 milímetros.”Essa diferença não altera o processo de fiação nem causa nenhum tipo de prejuízo ao maquinário”, esclarece. No mestrado, o pesquisador produziu um quilo de fio, composto por 50% de pelos de poodle e 50% de acrílico.





“A quantidade de pelo em cada tosa varia de acordo com o tamanho do animal. Para um poodle toy [menores da raça] são cerca de 120 gramas. Já um poodle big[o maior da raça] pode deixar cerca de 1,200 quilos de pelo em cada tosa. Por isso, consideramos uma média de cerca de 700 gramas de pelo por animal”, explica.

Os testes realizados constataram que este fio é semelhante à lã de carneiro em relação à maciez, tingibilidade (capacidade de receber corante), alongamento, absorção de líquido e isolamento térmico. “Um leigo não conseguiria diferenciar um fio que foi confeccionado com pelo de poodle de um fio confeccionado com o de carneiro. Apenas pessoas com conhecimento técnico poderiam perceber a diferença ao analisar o fio e constatar que se trata de uma fibra curta”, diz.

Para realizar a pesquisa, Lobo recolheu dez amostras de pelo de poodle em dez pet shops da cidade de São Paulo, sendo que cada amostra tinha peso variando de ½ a 1 quilo. Após passar por um processo de lavagem, as amostras foram separadas por cor: pelos brancos e creme; e pelos marrons e pretos. “A ideia era saber se havia alguma diferença em relação à finura dos fios claros e escuros”, conta. Os testes indicaram não haver diferença neste aspecto. O próximo passou foi realizar uma série de testes ligados à resistência, alongamento dos pelos, e comprimento de fibra.

Experiência empírica

A ideia de utilizar pelos de poodle como matéria prima para o setor têxtil surgiu por volta de 2008, quando Lobo atuava como professor do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), unidade Francisco Matarazzo, em São Paulo — e onde, atualmente, exerce o cargo de coordenador de cursos. Ele explica que a ideia surgiu durante uma conversa com suas alunas: “Uma delas tinha um cão poodle e comentou comigo sobre o aspecto semelhante entre as fibras de poodle e a lã de carneiro e que seria interessante utilizar o pelo do animal na indústria têxtil”, diz. Foi quando o grupo decidiu realizar testes práticos com os pelos de poodle para produzir tecidos.

Mestrado e doutorado

Em 2011, Lobo decidiu ingressar no mestrado acadêmico da Escola de Artes, Ciências e Humanidades com intuito de sair da experiência empírica obtida no Senai a fim de validar, de modo científico, a viabilidade de utilização dos pelos de poodle como matéria-prima para a produção de tecido pela indústria têxtil. Por isso, os estudos foram focados na análise dos pelos e na estrutura do fio produzidos com estes pelos. O mestrado teve orientação da professora Regina Aparecida Sanches e deve ser apresentado nos próximos meses. O projeto já foi divulgado em congressos na Croácia e na Alemanha.



“Foi um processo empírico, baseado no erro e no acerto para chegarmos à composição ideal do fio. Começamos com 25% de pelo de poodle e 75% de acrílico. Fizemos diversos testes, com diversas composições até chegarmos à porcentagem de 50% de pelos de poodle e 50% de acrílico para produzir o fio”, explica. Foram confeccionadas várias amostras de tecido, denominado “caniche” (que significa poodle em francês), tanto cru como tingido, sendo cerca de 1 quilo de malha e 10 metros de tecido plano. Na época, o professor contou a colaboração de duas indústrias têxteis.

Projeto Caniche foi apresentado em algumas feiras de inovação em 2008, como a Inova Senai, promovida pelo Senai, e na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), promovida pela Escola Politécnica (Poli) da USP. Na Febrace, o projeto foi apresentado na área de Ciências Biológicas pelas alunas Cibelle Gaijutis de Azevedo e Ellen Tais Santana, com orientação de Lobo e co-orientação da professora Aparecida Bezerra Nunes, do SENAI Francisco Matarazzo.

Agora que o pesquisador já constatou cientificamente a viabilidade do projeto, o próximo passo será a continuidade por meio de uma pesquisa de doutorado. De acordo com Lobo, a ideia central será a produção de tecidos utilizando pelos de poodle, mas, desta vez, com todo o critério científico que uma pesquisa deste porte exige.
Fotos:  Renato Nogueirol Lobo