quinta-feira, 4 de julho de 2013

Empreendimentos sociais geram ganhos materiais e bem-estar

Por Rúvia Magalhães Agência Usp
Um empreendimento social é uma organização sem fins lucrativos com uma ideia inovadora para promover uma mudança social. Visando entender melhor como eles funcionam e como contribuem para a promoção do desenvolvimento local, a pesquisadora Monica Bose, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, iniciou sua tese de doutorado. Por meio desse estudo foi possível concluir que os empreendimentos estudados tiveram, além de um incremento do bem-estar social, ganhos materiais. Apesar de terem aprimoramentos a serem feitos, todos as iniciativas estudadas são bem estruturadas e têm condições de alcançar metas. O estudo envolveu três empreendimentos sociais da região metropolitana de São Paulo.
A pesquisa constituiu na identificação e análise, em nível local, das contribuições das iniciativas. Os empreendimentos alvo dos estudos foram a Aliança Empreendedora, criado em Curitiba, a Rede Interação, criada em São Paulo, e o Fundo Zona Leste Sustentável, também criado em São Paulo.A Aliança Empreendedora tem como objetivo auxiliar na capacitação e formação de catadores de lixo cooperados, por meio de cursos e assessorias. A Rede Interação objetiva realizar a urbanização de áreas precárias, transformando a realidade do local. O Fundo Zona Leste Sustentável visa fortalecer a economia local (da região de São Miguel Paulista, na zona leste da cidade) e mobiliza recursos para movimentação dos negócios na região. Segundo a pesquisadora, esses empreendimentos estão se tornando cada vez mais profissionalizados, porém ainda restava a dúvida se eles estariam tendo impactos socais. Monica analisou se os objetivos a que eles se propuseram estavam sendo alcançados e aprofundou o debate nesse aspecto: Se os objetivos não foram alcançados, quais são os motivos? Oque poderia ser feito para que sejam alcançados?. Além disso, a pesquisadora avaliou se esses empreendimentos eram bem constituídos, quais eram suas contribuições nos aspectos sociais e em quais medidas. “Um segundo objetivo para a pesquisa foi tentar construir métricas que associassem a ação do empreendedorismo social ao desenvolvimento local”, explica a pesquisadora. Ela ressalta que buscou não apenas entender se o empreendimento social estudado atingiu seus próprios objetivos, mas se ele conseguiu, e em que medida, colaborar com o desenvolvimento, pensado como liberdade ou expansão de capacidades. Ou seja, ela também buscou analisar “em que medida os empreendimentos ampliaram as capacidades dos indivíduos que são beneficiados por suas ações”.


Metodologia
A tese foi desenvolvida a partir de uma abordagem contextualista dos empreendimentos sociais. Foram três estudos de caso, abordando as iniciativas já citadas inseridas em seu próprio meio, em parceria com agentes e atores que vão influenciar a ação e os resultados desse empreendimento social. “Estudei as teorias sobre o desenvolvimento social e sobre o desenvolvimento local para fundamentar esse estudo e estabelecer um diálogo sobre a questão do desenvolvimento e do empreendedorismo social”, relata Monica. Com base nas análises e teorias, foram identificados os principais agentes influenciadores e que tipo de poder e capitais eles mobilizam. A partir do estudo de cada caso, foram buscados indicadores capazes de apontar se aquelas comunidades nas quais os empreendimentos trabalhavam tiveram algum ganho, em termos de promoção de desenvolvimento. Foram usados três vertentes de indicadores: de riqueza material, de bem-estar social e de empoderamento.

Conclusões
A pesquisadora apontou que, embora os empreendimentos sejam diferentes, com abordagens diferentes, as iniciativas chegam a resultados parecidos: “apesar da fundamentação ser diferente e as metodologias adotadas também serem diferentes, é bastante interessante notar que eles chegam em resultados parecidos”.

Em todos os três casos, o indicador mais evidente foi na esfera da riqueza material. Todos trouxeram ganhos significativos seja na geração de empregos, no aumento da renda e no poder de consumo das pessoas que participaram dos empreendimentos estudados. Já a promoção do bem-estar social foi relativa, dependendo do foco de cada iniciativa pôde ser mais direta ou indireta. Todos os empreendimentos sociais estudados têm metodologias eficientes e bem estruturadas, o que revelam boas condições de atingir os objetivos. No entanto, as instituições têm aperfeiçoamentos a serem feitos. Uma das principais é a formulação de um método que sugira formas de ampliar a participação popular e o público atendido pelas oportunidades oferecidas.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Estudo da FSP avalia o impacto do Bolsa Família na compra de alimentos em famílias de baixa renda

Da Assessoria de Imprensa da Faculdade de Saúde Pública (FSP)
Avaliar o impacto do Programa Bolsa Família sobre a aquisição de alimentos em famílias de baixa renda no Brasil foi o objetivo da tese de doutorado Impacto do Programa Bolsa Família sobre a aquisição de alimentos em famílias brasileiras de baixa renda, de autoria da nutricionista Ana Paula Bortoletto Martins, sob orientação do professor Carlos Augusto Monteiro, do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP.



Segundo a pesquisadora, “As avaliações de impacto dos programas de transferência de renda sobre alimentação dos beneficiários brasileiros são escassas e não apresentam resultados consistentes”. Isso faz com que esta tese seja uma das primeiras contribuições para a avaliação desta realidade no país. Para a realização da pesquisa, foram utilizados dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), realizada em 2008-2009 em uma amostra probabilística de 55.970 domicílios brasileiros. A avaliação de impacto foi realizada para o conjunto dos domicílios de baixa renda (com renda per capita inferior a R$ 210,00) e, separadamente, para os domicílios deste conjunto com renda superior e inferior à mediana, denominados, respectivamente, domicílios ‘pobres’ e ‘extremamente pobres’. O impacto do programa sobre a aquisição de alimentos foi estabelecido comparando-se indicadores da aquisição de alimentos entre domicílios beneficiados e não beneficiados pelo programa, que foram agrupados em blocos e pareados com base no escore de propensão de cada domicílio possuir moradores beneficiários. Os resultados obtidos pela pesquisa mostram que, comparados aos domicílios não beneficiados, os domicílios beneficiados pelo programa apresentaram maior gasto total com alimentação, maior disponibilidade de energia proveniente do conjunto de itens alimentares e maior disponibilidade proveniente de alimentos e de ingredientes culinários. Não houve diferenças significativas entre beneficiados e não beneficiados pelo programa com relação à disponibilidade de produtos prontos para consumo. Houve diferenças significativas favoráveis aos domicílios beneficiados pelo programa com relação à disponibilidade de alimentos como carnes, tubérculos e hortaliças. Resultados semelhantes foram observados para os domicílios ‘pobres’ e ‘extremamente pobres’, ainda que as diferenças favoráveis aos domicílios beneficiados pelo programa tenham sido menos expressivas na condição de extrema pobreza. Observando estes resultados, a pesquisadora concluiu que o impacto do Programa Bolsa Família em famílias de baixa renda traduziu-se em maior gasto domiciliar com alimentação, maior disponibilidade de alimentos in natura ou minimamente processados e ingredientes culinários e maior disponibilidade de alimentos que usualmente diversificam e melhoram a qualidade nutricional da dieta. Os efeitos do programa foram menores para famílias extremamente pobres. Segundo Ana Paula, “o Programa Bolsa Família promove maior consumo de alimentos entre as famílias beneficiadas. Porém, o aumento da renda isolado não garante melhorias efetivas na qualidade da dieta. Outras políticas que incentivem o consumo de alimentos saudáveis e garantam o acesso a esses alimentos são fundamentais”.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Estudo indica como aumentar a conservação de frutas amazônicas

Por Karina Toledo
Agência FAPESP – As propriedades funcionais presentes em boa parte das frutas amazônicas já foram reconhecidas por diversos estudos. Mas os consumidores de outras regiões do país e do mundo costumam ter acesso a esses alimentos somente após seu processamento, geralmente na forma de polpa congelada ou de doce. Para facilitar a comercialização in natura, dentro e fora do país, de três espécies nativas da floresta tropical – camu-camu (Myrciaria dubia), bacupari (Garcinia gardneriana) e abiu (Pouteria caimito) – pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) investigaram o ponto ideal de colheita e a temperatura de armazenamento que permite prolongar ao máximo o tempo de vida pós-colheita. “O camu-camu foi escolhido como carro-chefe do trabalho por ser a espécie conhecida com o maior teor de vitamina C. O nível de ácido ascórbico dessa fruta chega a ser 150 vezes maior que o da laranja. Além disso, é rico em antocianina, um pigmento com propriedades antioxidantes”, disse Patrícia Maria Pinto, pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Fitotecnia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP). Segundo Pinto, bolsista de Doutorado e de Mestrado da FAPESP, o bacupari foi escolhido por ser rico em carotenoides e possuir princípios ativos com ação bactericida. Já o abiu, além de muito saboroso, é rico em vitaminas A, B e C, além de cálcio e fósforo.
“São frutas pouco exploradas, comercializadas em pequena escala no país e com potencial até para exportação”, disse Pinto.O projeto de pesquisa foi realizado no Laboratório de Pós-Colheita de Frutas e Hortaliças, sob orientação do professor Angelo Pedro Jacomino, do Departamento de Produção Vegetal da Esalq. Parte das análises foi feita na Universidade da Flórida, Estados Unidos, sob supervisão do professor Steven Sargent.

As frutas foram colhidas em diferentes estádios de maturação e, por meio de análises físicas, químicas, fisiológicas e testes de qualidade, foi determinado o período ideal para cada espécie.“Algumas frutas, como a banana, podem ser colhidas ainda verdes. São as chamadas frutas climatéricas. Outras, como o abacaxi e a laranja, precisam estar totalmente maduras, pois o processo de amadurecimento é interrompido com a colheita e, se forem colhidas antes da hora, a qualidade dessas frutas é prejudicada. São as chamadas frutas não-climatéricas”, explicou Pinto. De acordo com os resultados das análises, o camu-camu e o abiu se mostraram viáveis para colheita cerca de 15 dias antes da maturação completa. “O ponto ideal para o camu-camu é quando está com a casca na cor vermelho-esverdeada e, o abiu, com a casca na cor verde-amarela”, disse Pinto. O bacupari, por outro lado, se revelou um fruto não-climatérico. Precisa ser colhido já totalmente maduro, quando a casca atinge a coloração laranja. Em seguida, as frutas foram submetidas a diferentes temperaturas de armazenamento. Os pesquisadores da Esalq verificaram que o abiu e o bacupari podem ser refrigerados a 10 ºC, por mais de 15 dias, sem sofrer alterações de cor nem qualquer outro dano pelo frio. Já o camu-camu pode ser armazenado a 5 ºC, também por mais de 15 dias, sem qualquer prejuízo. À temperatura ambiente, o tempo de vida pós-colheita das frutas foi em torno de uma semana. “Avaliamos a coloração das frutas, a firmeza, perda de massa, o teor de acidez e de sólidos solúveis e a integridade dos pigmentos e das vitaminas para determinar por quanto tempo elas se mantinham viáveis para consumo”, explicou Pinto.
Outras frutas
Embora sejam espécies nativas da Amazônia, as frutas usadas na pesquisa foram todas cultivadas no Estado de São Paulo. Os abius são originários de pomares comerciais da região de Mirandópolis. Os bacuparis e os camu-camus são da Coleção de Frutas Tropicais da Estação Experimental de Citricultura de Bebedouro (EECB), instituição parceira no desenvolvimento do estudo. “Queríamos mostrar aos produtores que, com técnicas corretas, essas espécies da floresta amazônica se desenvolvem bem em outras regiões e têm boa vida pós-colheita”, disse Pinto. 
Segundo ela, as análises usadas no trabalho podem servir de base para outras frutas, entre elas o açaí, principal destaque da fruticultura amazônica. “Há poucos estudos sobre a pós-colheita do açaí in natura. A maioria deles é feita com produtos industrializados, na forma de suco, de polpa congelada ou de pó. Também seria interessante intensificar os estudos com outras espécies amazônicas, como o cupuaçu e o guaraná”, opinou. 

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Substância usada na hipertensão é eficaz para tratar esquizofrenia

Fonte: Agência USP


Pesquisa conjunta entre a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e Unidade de Pesquisa em Neuroquímica da Universidade de Alberta, Canadá, obtém novo tratamento para a esquizofrenia. Resultados mostraram maior eficácia no controle de todos os seus sintomas, além de ação mais rápida e sem efeitos colaterais. Os achados da pesquisa, coordenada pelos professores Jaime Hallak, da FMRP, e Serdar Dursun, de Alberta, acabam de ser publicados na Revista Archives of General Psychiatry/JAMA Psychiatry.Os medicamentos disponíveis até hoje, segundo os pesquisadores, traziam melhoras somente parciais e agiam, principalmente, nos delírios e alucinações dos pacientes, mas possuíam ação muito discreta, ou mesmo não agiam, sobre outros sintomas, como os negativos e cognitivos. Assim, começaram a testar um tratamento com uma substância já conhecida, o nitroprussiato de sódio, que é utilizado na hipertensão arterial sistêmica grave.
Depois de amplamente testada em animais, estudaram durante três anos sua ação em humanos, os quais apresentavam a fase aguda da doença, com indicação de internação e, no máximo, cinco anos de diagnóstico. Esses pacientes foram internados no Hospital das Clínicas da FMRP e, após uma semana tomando os medicamentos prescritos por seus médicos, aqueles que ainda apresentavam os sintomas da doença foram divididos em dois grupos. O primeiro recebeu placebo e o outro, a medicação à base de nitroprussiato de sódio.

“Os resultados foram impactantes naqueles que receberam o nitroprussiato de sódio”, revela Hallak. Ele conta que houve uma diminuição de todos os sintomas agudos da esquizofrenia já nas primeiras horas de infusão. “Esses pacientes foram avaliados durante as 4 horas de infusão, depois de 12 e 24 horas, depois de 7 e de 28 dias, e continuaram com a melhora. E, o mais importante, não apresentaram efeitos colaterais. A pressão inclusive se manteve normal”, comemora.
Reversão dos sintomas da esquizofrenia
Nitroprussiato de sódio é um tipo de sal que doa o óxido nítrico ao sistema nitrérgico, ou seja, é um vaso dilatador que age na periferia do sistema vascular. Mas no caso da esquizofrenia, o interesse dos pesquisadores foi na ação central (no sistema nervoso central).Várias discussões sobre a fisiopatologia da esquizofrenia, as quais já haviam concluído pela existência de uma disfunção do sistema glutamatérgico nos portadores da doença, serviram de ponto de partida para as pesquisas. “Esse sistema glutamatérgico age muitas vezes utilizando o óxido nítrico como intermediário, ou como um segundo ou terceiro mensageiro. Então, se tiver uma diminuição de alguma função desse sistema neurotransmissor glutamatérgico, diminuiria a produção de óxido nítrico. Assim, após analisar os estudos que trazem essa evidência, hipotetizamos que se fosse reposto o óxido nítrico, haveria a reversão dos sintomas de esquizofrenia. E foi justamente isso que aconteceu”, afirma o professor Hallak.

Potencial cura para a esquizofrenia
Cerca de 1% da população mundial sofre de esquizofrenia, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). A doença é crônica, não tem cura e atinge a pessoa no momento em que todos esperam seu desabrochar, o final da adolescência.Segundo o professor Hallak, nos últimos 60 anos houve um grande avanço na diminuição dos efeitos colaterais dos medicamentos que tratam a esquizofrenia, mas a eficácia ainda é pequena. Esses medicamentos, diz, agem principalmente no sistema dopaminérgico. “Esses medicamentos são muito bons para os sintomas chamados positivos, como delírios e alucinações, por exemplo, o paciente tem uma melhora parcial e os resultados do tratamento demoram para aparecer. Eles não são bons nos sintomas cognitivos, os negativos e afetivos da esquizofrenia.

Para o estudo que foi publicado, os pesquisadores avaliaram os pacientes que receberam o nitroprussiato de sódio até o 28º dia de tratamento. Entretanto, novos estudos conduzidos pelo grupo trazem evidências de que a melhora perdura ao menos até três meses. “Estamos partindo agora para o estudo de doses repetidas”, revela o professor. Os especialistas garantem que, além da própria eficácia do tratamento, esses resultados abrem caminho para pesquisas nessa mesma linha para tratamentos curativos da esquizofrenia. “Esses resultados são a prova de que existem tratamentos mais efetivos e que é possível pensar em cura para a esquizofrenia. Alguns grupos estão pesquisando formas de identificar cada vez mais precocemente marcadores que prevejam o aparecimento da doença. Assim, essas pessoas podem começar um tratamento também precoce com drogas, por exemplo, desta linha. Com isso a chance de se impedir o aparecimento e, consequentemente, a progressão da doença, é muito grande. Estamos abrindo caminho não só para um medicamento, mas também para pesquisa na fisiopatologia, nas causas da esquizofrenia”.
Participaram da pesquisa publicada na JAMA Psychiatry, Melhoria rápida dos sintomas da esquizofrenia agudizada após nitroprussiato de sódio por via intravenosa: um estudo randomizado duplo-cego, placebo-controlado, além dos professores Hallak e Dursun, os professores Glen Baker, João Paulo Maia de Oliveira, José Alexandre Crippa, Antonio Waldo Zuardi, João Abrão, Paulo Roberto Évora e Paulo Abreu.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Artigo faz revisão bibliográfica da produção científica sobre a Nutrição na Atenção Primária à Saúde no Brasil

Fonte Scielo


As autoras descrevem que a literatura mostra a efetividade das Ações de Nutrição na Atenção Primária (APS) para a promoção da saúde e a prevenção e tratamento de agravos. A Atenção Primária à Saúde é definida como os cuidados básicos e essenciais, para os quais há métodos, tecnologias e evidências científicas, ao alcance universal de indivíduos e famílias e contando com sua participação.
Segundo as autoras, no âmbito da APS no país, as ações de alimentação e nutrição e do cuidado nutricional compreendem atividades como a vigilância alimentar e nutricional, promoção da alimentação saudável e programas de prevenção e controle de distúrbios nutricionais, tais como anemia ferropriva e hipovitaminose A, além do acompanhamento das condicionalidades de programas governamentais, como o Programa Bolsa Família. Atualmente, tais ações são sistematizadas e organizadas numa Matriz de Ações de Alimentação e Nutrição na Atenção Básica de Saúde, representando um esforço convergente e complementar a diversos programas públicos de saúde.



As autoras salientam que estudo conduzido no Canadá aponta que um modelo de serviço de nutrição interdisciplinar, com diferentes e complementares serviços de apoio é mais prático e acessível à população, com melhor custo-efetividade e sustentabilidade do que um modelo de serviço de nutrição disciplinar. Assim, entende-se que as ações de alimentação e nutrição vão além das atividades desempenhadas por nutricionistas e têm importante papel na promoção da saúde da população e na prevenção e tratamento de agravos.
Com esta revisão sistemática de literatura, os autores concluíram também que a produção na área é crescente, porém identificaram que há necessidade de se redirecionarem as abordagens e os objetos de futuros estudos, focando-se mais em modelos de intervenção e em avaliação de programas.

O artigo "Produção científica sobre nutrição no âmbito da Atenção Primária à Saúde no Brasil: uma revisão de literatura" foi publicado na Revista Científica Ciência & Saúde Coletiva (Vol.18, Nº 2, Rio de Janeiro, fevereiro 2012) e editada pela Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (ABRASCO).

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Identificadas regiões do genoma ligadas ao câncer de ovário

Rosemeire Soares Talamone, do Serviço de Comunicação Social da Prefeitura USP de Ribeirão Pretoimprensarp@usp.br


Pesquisadores reunidos em consórcio internacional acabam de publicar resultados, identificando e caracterizando novas regiões do genoma humano associadas ao risco do câncer de ovário. O estudo teve a participação do professor Houtan Noushmehr, do Departamento de Genética da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP. As regiões identificadas apresentam alterações em um único par de base e, segundo os pesquisadores, estão em partes do DNA não codificantes, ou seja, não estão nos 3% do genoma que produzem proteínas, entretanto, são importantes na regulação da produção dessas proteínas.
O que os pesquisadores fizeram foi encontrar a associação dessas regiões que controlam a produção de proteína com o câncer de ovário. Mais pesquisas serão necessárias para determinar a verdadeira função biológica dessa região do DNA, mas o trabalho contribui para o estabelecimento de bases para a medicina genômica pessoal, segundo o professor  Noushmehr. Ele é co-autor em 2 dos 13 artigos publicados em 27 de março nas revistas Human Molecular GeneticsAmerican Journal of Human GeneticsPLoS GeneticsNature GeneticsNature Communications.

Noushmehr foi responsável por parte da análise de dados. Em trabalho anterior, o professor havia utilizado uma ferramenta de bioinformática, o FunciSNP, para integrar dados coletados em pesquisas sobre genoma e epigenoma de doenças como o câncer com o Genome-WideAssociation Studies (GWAS). Essa ferramenta foi desenvolvida pelo próprio professor Noushmehr quando fez seu pós-doutorado na Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos. “Meu laboratório na FMRP está interessado em decifrar as regiões reguladoras do genoma que podem conferir riscos a doenças complexas como o câncer de ovário, por exemplo”, ressalta. Os resultados publicados agora são frutos do trabalho de um grupo com mais de 100 pesquisadores reunidos em consórcio de colaboração internacional dos Estados Unidos e Reino Unido, o Collaborative oncological gene-environment study (CPV), do qual Noushmehr faz parte. Também utilizaram grande quantidade de dados gerados por outros grandes consórcios de pesquisadores, como The Cancer Genome Atlas (TCGA), ENCOD e “GWAS”.

Análise de dados
O chefe do Departamento de Genética da FMRP, o professor Wilson de Araujo da Silva Junior, destaca a importância da formação de Noushmehr para a análise desses dados. Biólogo com mestrado em biologia molecular e em bioinformática e doutorado na área de genética, “ele é o que chamamos de bioinformatacompleto; entende tanto a parte biológica como a parte computacional do estudo”. Noushmehr domina a visualização do problema biológico e também o conhecimento para desenvolver uma ferramenta capaz de decifrar esse problema. Ainda, segundo o professor Silva Junior, essa ferramenta de bioinformática consegue simplificar uma análise, o que normalmente outros profissionais, trabalhando de forma isolada, levam mais tempo ou realizam com menos eficiência. “Nesse caso, foi analisada uma quantidade muito grande de informação do genoma, tanto de pessoas saudáveis quanto de pacientes com câncer de ovário”.
Os resultados mostraram que determinadas regiões conferem mais riscos para o câncer de ovário. Essa revelação, garante Silva Junior, abre caminho para orientar o médico na conduta a ser tomada para o tratamento das pessoas acometidas por esse tipo de câncer. E melhor, a terapia pode ser personalizada, pois terão à disposição informações quanto à agressividade do tumor. O professor Noushmehr participou de trabalhos que geraram os artigos Identificationand molecular characterizationof a new ovarian cancer susceptibility locus at 17q21.31 e GWAS meta-analysisandreplicationidentifiesthree new susceptibility loci for ovarian cancerpublicados na Nature Communications e na Nature Genetics,  respectivamente.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Em busca de alvos terapêuticos, cientistas mapeiam rede de interação gênica


Por Karina Toledo
Agência FAPESP – Descobrir como os genes de um determinado tecido do corpo humano se comunicam, e o que muda nessa rede de interação gênica quando uma pessoa fica doente, permite não apenas compreender melhor o mecanismo molecular das enfermidades como também identificar alvos terapêuticos para o desenvolvimento de novas drogas. Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) estão usando essa estratégia para estudar o cérebro de pessoas com uma forma de epilepsia resistente aos medicamentos hoje disponíveis. Também estão usando o método para entender o desenvolvimento do timo, órgão de grande importância para o sistema imunológico, com o objetivo futuro de descobrir como as doenças autoimunes e as imunodeficiências se instalam. “Estamos aplicando na área de genômica uma ferramenta que surgiu na Física há muito tempo: análise de redes complexas. Isso permite mapear de maneira precisa os genes mais importantes e aqueles que têm mais ligações com outros genes”, contou Carlos Alberto Moreira-Filho, da Faculdade de Medicina (FMUSP).


A análise é feita com uma amostra milimétrica do tecido a ser estudado. Os cientistas extraem o RNA mensageiro presente no fragmento e, por meio de análises estatísticas, mensuram quais genes estão mais ou menos expressos no local. “Nossos genes são os mesmos em qualquer parte do corpo. O que diferencia uma célula da retina de uma do epitélio ou da mucosa gástrica é o conjunto de genes que está sendo expresso e a rede de interação entre eles. Por meio de análises estatísticas par a par, é possível perceber quando a expressão de um gene aumenta ou diminui e quem sobe ou desce com ele. Assim mapeamos a rede de interação”, explicou Moreira-Filho. Essa análise permite identificar dois tipos de genes-chave em um tecido: os HUBs – aqueles que têm um número grande de ligações com outros genes – e os VIPs – que, embora não tenham muitas ligações, funcionam como uma ponte entre os genes do tipo HUB.
“Identificar quem é VIP e quem é HUB não é mera curiosidade estatística. É extremamente importante em termos de função biológica. O gene HUB está relacionado a uma via metabólica importante e o VIP é responsável por unir duas ou mais vias metabólicas em um processo”, disse o pesquisador. Os softwares desenvolvidos para essas análises podem, segundo Moreira-Filho, ser usados para estudar doenças em qualquer parte do corpo. Servem ainda como ferramenta para estudos de genômica funcional de microrganismos, plantas e animais, levantando informações úteis para pesquisas que busquem, por exemplo, o melhoramento genético.
O trabalho vem sendo realizado no âmbito do projeto “Modelos e métodos de e-Science para ciências da vida e agrárias”, coordenado por Roberto Marcondes Cesar Junior, do Instituto de Matemática e Estatística (IME-USP), e conta com a colaboração do grupo liderado por Luciano Fontoura da Costa no Instituto de Física de São Carlos (IFSC-USP). O projeto é financiado pela FAPESP e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio do Programa de Apoio a Núcleos de Excelência (Pronex).


Sinapse
As análises relacionadas à epilepsia, porém, começaram antes mesmo do Pronex – no âmbito de um Projeto Temático coordenado por Moreira-Filho. O objetivo era entender por que alguns pacientes com a forma mais comum da doença – chamada de epilepsia do lobo temporal mesial – não respondem ao tratamento medicamentoso. “Estimamos que um terço dos indivíduos afetados por esse tipo de epilepsia no mundo seja refratário às drogas existentes, algo em torno de 10 milhões de pessoas”, contou o pesquisador. Esses pacientes chegam a ter várias crises por semana, o que pode causar importante comprometimento da qualidade de vida, além do risco de morte súbita. Atualmente, a única opção nesses casos é remover cirurgicamente a parte do hipocampo afetada – procedimento difícil, caro, invasivo e ao qual poucos têm acesso.
“O ideal é encontrar uma solução medicamentosa, mas para isso precisamos entender melhor o mecanismo da doença. E uma das maneiras mais interessantes de fazer isso é pelo estudo das redes de interação gênica”, afirmou Moreira-Filho. No início, os pesquisadores usavam softwares mais simples, capazes apenas de mapear a rede de genes diferencialmente expressos – aqueles que estão se expressando de forma diferente por causa de um estímulo do ambiente, como febre ou trauma. Nessa época, a rede tinha entre 200 e 400 genes. Agora, graças aos softwares mais complexos, são cerca de 15 mil, o que corresponde a praticamente todos os genes expressos nessa região do hipocampo.
“Hoje a gente sabe com certeza que ser diferencialmente expresso não é a única razão da relevância de um gene em uma doença. Às vezes isso é uma consequência do padrão de relacionamento dos genes que mudou. Percebemos que os genes diferencialmente expressos são um elemento de perturbação da rede. Para saber onde intervir, é preciso conhecer a rede toda”, contou Moreira-Filho. As investigações iniciais na área de epilepsia do lobo temporal mesial já resultaram em um trabalho publicado na revista PLoS One. No artigo, os pesquisadores mostram que, dependendo do estímulo que desencadeia a doença, ela adquire um perfil molecular diferente. “Tem uma forma que resulta de um insulto precipitante febril e outra que resulta de outros tipos de estímulos. São perfis diferentes do ponto de vista molecular e isso é importante para identificar alvos terapêuticos. Já identificamos alguns genes candidatos para estudos com drogas in vitro e em modelos animais”, contou.
As pesquisas com fragmentos do timo ainda estão no começo, mas já foi possível perceber que o padrão de expressão dos genes nesse órgão sofre uma grande alteração a partir dos seis meses de idade e muda novamente a partir de um ano. Os resultados preliminares foram apresentados na 2ª Escola São Paulo de Ciência Avançada em Imunodeficiências Primárias (ESPCA-PID),realizada entre os dias 3 e 8 de março. “O timo é responsável pelo desenvolvimento da tolerância central, ou seja, ele ensina as células de defesa a não atacar antígenos do próprio organismo. O órgão é grande em recém-nascidos e diminui com o passar do tempo, mas a tolerância se mantém. Queremos entender o que acontece de tão espetacular com o timo nesse primeiro ano de vida”, afirmou Moreira-Filho.