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sexta-feira, 14 de novembro de 2014
Molécula mostra potencial contra insuficiência cardíaca
Por Karina ToledoAgência FAPESP – Uma molécula sintética descoberta por pesquisadores da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e da Universidade de São Paulo (USP) demonstrou, em ensaios pré-clínicos, potencial para se tornar uma aliada no tratamento da insuficiência cardíaca e de outras doenças. Os primeiros testes com humanos, apenas para atestar a segurança do composto, devem ter início no segundo semestre deste ano, com apoio privado.
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Cientistas tentam identificar genes-chave para o controle de funções vitais
Por Karina Toledo, de Londres
Agência FAPESP – Diversas funções vitais do organismo são controladas pelo sistema nervoso autônomo, entre elas os batimentos cardíacos, a pressão arterial e o balanço hidromineral (relação entre o volume de água e o teor de sódio). Mas, em grande parte das pessoas, esse controle deixa de funcionar adequadamente com o envelhecimento, o que aumenta o risco de problemas como desidratação, hipertensão e diversas outras doenças cardiovasculares.
Descobrir como o avanço da idade e certos hábitos de vida – entres eles o sedentarismo e o consumo excessivo de sal – afetam a expressão de genes em determinadas regiões cerebrais responsáveis por esse balanço autonômico é o objetivo de dois projetos que estão sendo conduzidos por pesquisadores brasileiros e britânicos no âmbito de um acordo firmado entre a FAPESP e os Conselhos de Pesquisa do Reino Unido (RCUK, na sigla em inglês). Resultados preliminares desses projetos foram apresentados no dia 26 de setembro, durante a programação da FAPESP Week London. O simpósio foi realizado na capital do Reino Unido pela FAPESP, com apoio do British Council e da Royal Society. “Se conseguirmos identificar, por exemplo, um gene que é ativado pela prática de atividade física na parte do cérebro na qual estamos interessados, podemos manipular esse gene em animais para aumentar sua expressão e verificar se isso produz o mesmo efeito benéfico dos exercícios para o controle da pressão arterial. Claro que ainda estamos no nível da pesquisa básica, mas podemos, no futuro, identificar alvos potenciais para o desenvolvimento de novos medicamentos”, afirmou David Murphy, pesquisador da Universidade de Bristol e coordenador do grupo britânico nos dois projetos. No Brasil, a professora Lisete Compagno Michelini, da Universidade de São Paulo (USP), coordena um Projeto Temático, cujo objetivo é investigar os mecanismos fisiológicos responsáveis pelo desenvolvimento da hipertensão ao longo da vida e verificar se o treinamento físico poderia proteger contra esse déficit autonômico na velhice. “Antes do início do projeto, o grupo coordenado por Murphy já havia identificado em ratos adultos sete genes bastante relacionados com a homeostase cardiovascular. Nos experimentos feitos na USP, nós havíamos observado que a atividade física moderada melhora muito o balanço autonômico em ratos hipertensos, reduz a frequência cardíaca, a pressão arterial e modifica a expressão dos genes nessas mesmas áreas cerebrais estudadas por Murphy”, contou Michelini. Usando como modelo uma linhagem de ratos com propensão a desenvolver hipertensão à medida que envelhece, o grupo da USP decidiu estudar, em parceria com o grupo britânico, a expressão gênica em uma região do hipotálamo conhecida como núcleo paraventricular em várias fases da vida do animal. Também estão sendo analisados os genes do núcleo do trato solitário e da região rostroventrolateral da medula. A proposta é estudar quatro grupos de roedores: normotensos e hipertensos sedentários e normotensos e hipertensos, submetidos a uma hora diária de atividade física aeróbica moderada. “Pretendemos acompanhar esses quatro grupos desde um mês de idade – quando todos os animais ainda têm a pressão normal – até um ano e dois meses de idade, o que nos humanos seria o equivalente a 60 ou 70 anos”, contou Michelini. Também no Brasil, o professor José Antunes Rodrigues, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), coordena um Temático que busca esclarecer os mecanismos neuroendócrinos que controlam a sede, o apetite por sal e a homeostase dos líquidos corporais. De acordo com Antunes, a regulação do sal no organismo depende da presença de receptores especiais capazes de detectar variações da osmolaridade plasmática (concentração de íons como sódio, cloreto, proteínas, bicarbonato, glicose e outros constituintes) e do volume sanguíneo. Essas informações são encaminhadas para o sistema nervoso central, que determina respostas comportamentais, como maior ingestão de água ou de sódio, ou respostas neuroendócrinas e renais, como aumento na excreção de água e de sódio. O mau funcionamento desse sistema pode fazer, por exemplo, com que a pessoa não sinta sede quando deveria, aumentando o risco de desidratação. “Na década de 1960, nós já havíamos observado em ratos que certos tipos de lesão no núcleo paraventricular diminuem a ingestão de sódio e que lesões nos núcleos amigdaloides determinam o aumento do consumo”, contou Rodrigues. Estudos recentes, acrescentou, descreveram a existência de dois genes no hipotálamo – o Giot1 e o Rasd1 – envolvidos na regulação do controle da ingestão de sódio em ratos sadios. Aparentemente, uma maior expressão do Giot1 resulta na inibição da ingestão de sódio, enquanto o Rasd1 tem o efeito de aumentar o consumo. “Decidimos então formar a parceria para tentar correlacionar os eventos fisiológicos que acompanham a alteração da ingestão ou da excreção de sódio e água com alterações específicas nos genes da região hipotalâmica”, contou Antunes. Em um dos experimentos, os pesquisadores submeterem ratas prenhes a uma dieta rica em sódio durante o período de gestação e lactação e observaram mudanças no padrão de ingestão de sódio e de água na prole.
“Queremos avaliar as alterações fisiológicas e genéticas que esses animais vão apresentar na idade adulta, tanto em repouso como em condição de restrição hídrica ou de sobrecarga salina”, disse o pesquisador.
Mão dupla
Com grande expertise no campo da fisiologia, os grupos brasileiros trabalham com modelos animais para identificar quais partes do organismo estão envolvidas no controle autonômico. Já o grupo da Inglaterra é responsável pela análise do chamado transcriptoma, ou seja, descobrir quais genes estão sendo expressos, em que nível e em quais regiões do corpo, e como os estímulos ambientais afetam a transcrição dos genes. “Depois de identificar os genes nessas partes do cérebro que sabemos serem cruciais para a regulação da homeostase, usamos ferramentas da bioinformática capazes de fazer um processamento matemático muito complexo para mapear a rede de interação gênica e identificar os genes-chave, também chamados de hub, que são aqueles com um maior número de ligação com outros genes”, contou Muphy. O objetivo, acrescentou o pesquisador, é justamente identificar alvos que poderão ser manipulados nos animais para observar, em seguida, a consequência fisiológica dessa alteração. Antunes ressalta que a parceria internacional está sendo muito importante não apenas porque um grupo complementa o trabalho do outro, mas também porque está possibilitando o treinamento de pós-doutorandos. Murphy concorda: “Tenho um laboratório repleto de brasileiros e há uma troca de habilidades. Nós estamos aprendendo fisiologia integrativa e os pós-doutorandos brasileiros estão estudando não apenas a transcriptômica, mas também a bioinformática, e aprendendo a fazer ferramentas para manipular expressão de genes in vivo. Estabelecer essa capacidade em São Paulo será muito importante”, avaliou.
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sexta-feira, 11 de maio de 2012
Molécula reverte processo que leva à insuficiência cardíaca
Agência
FAPESP – Uma molécula desenvolvida por pesquisadores da
Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e da Universidade de São Paulo (USP)
se mostrou capaz de estabilizar e até mesmo reverter o processo degenerativo
observado na insuficiência cardíaca. O mal é caracterizado pela incapacidade do
coração em bombear sangue adequadamente e leva à morte 70% dos afetados
nos primeiros cinco anos. Os resultados dos testes pré-clínicos com a molécula
batizada de βIIV5-3 foram divulgados na revista PLoS One. A pesquisa faz
parte do pós-doutorado de Julio
Cesar Batista Ferreira, com Bolsa da FAPESP. “A insuficiência cardíaca é o
resultado final comum de diferentes doenças cardiovasculares, como infarto do
miocárdio e hipertensão arterial. Depois que o problema se instala, a sobrevida
do paciente costuma ser relativamente curta, mesmo com a ajuda de todos os
fármacos do mercado”, disse Ferreira, professor do Instituto de Ciências
Biomédicas da USP. Ainda durante o doutorado, realizado na Escola de Educação
Física e Esporte da USP sob orientação da professora Patricia Chakur Brum,
Ferreira encontrou evidências de que uma proteína chamada PKCβII ("protein
kinase C isoform βII") poderia ser a vilã por trás do processo que leva à
insuficiência cardíaca. Para testar sua hipótese, decidiu criar uma molécula
capaz de inibir a ação dessa proteína nas células do coração. O trabalho foi
feito em colaboração com a pesquisadora Daria Mochly-Rosen, da Escola de
Medicina de Stanford. “O βIIV5-3 é uma combinação de seis aminoácidos ligados a
uma molécula carreadora, capaz de atravessar a membrana celular. Esse princípio
ativo inibe a interação da proteína com seu receptor”, disse Ferreira. Para
chegar a essa combinação, os cientistas usaram programas de computador capazes
de alinhar duas proteínas e apontar semelhanças e diferenças estruturais,
completou. “Isso permite escolher regiões específicas de interação entre essas
proteínas.” A equipe então testou a molécula em dois modelos animais. No
primeiro, um grupo de ratos passou por uma cirurgia para obstruir uma artéria
coronária e induzir o infarto. Cerca de um mês depois, os animais apresentaram
sinais de insuficiência cardíaca. Metade foi tratada com o βIIV5-3 por seis
semanas e a outra metade recebeu placebo. “Após as seis semanas, a função cardíaca
havia melhorado cerca de duas vezes nos animais tratados com o βIIV5-3, quando
comparada ao grupo controle. Além disso, a mortalidade caiu de 35% para 3%”,
contou Ferreira. O segundo experimento foi feito com ratos que apresentavam
grande sensibilidade ao sódio. Com seis semanas de vida, os animais foram
submetidos a uma dieta rica em sal e, logo em seguida, desenvolveram
hipertensão. Quando completaram 11 semanas, já estavam com sinais de
insuficiência cardíaca e passaram a receber o tratamento ou o placebo. A função
cardíaca dos animais que receberam o βIIV5-3 melhorou duas vezes em relação ao
grupo controle e, nesse caso, ficou igual à de ratos sem insuficiência
cardíaca. Já a mortalidade caiu de 50% para 0%. “Mesmo após o término do
tratamento os animais que receberam o βIIV5-3 apresentaram reduzida mortalidade
quando comparados ao grupo placebo”, comemorou o pesquisador.
Validação
Para provar
que também em humanos a PKCβII desempenha papel decisivo no agravamento da
insuficiência cardíaca, os pesquisadores avaliaram amostras de biópsia
cardíacas de portadores desse problema. “A relação foi clara: quanto mais altos
eram os níveis de PKCβII, pior era a função cardíaca dos pacientes”, contou
Ferreira. Essa etapa da pesquisa teve a participação de Berta Napchan Boer e
Max Grinberg, ambos do Instituto do Coração (Incor) da USP. O próximo passo foi
entender por que a proteína PKCβII é deletéria ao músculo cardíaco. Para isso,
os pesquisadores realizaram uma série de experimentos in vitro com a
proteína isolada e com culturas de células cardíacas de ratos. “Descobrimos que
a PKCβII desregula o controle de qualidade das proteínas dentro das células
cardíacas. Ela se liga ao proteassomo, um complexo intracelular que elimina as
proteínas oxidadas, e impede que ele funcione adequadamente”, explicou
Ferreira. Para piorar, o coração com insuficiência torna-se um ambiente
pró-oxidante, ou seja, no qual está favorecida a produção de radicais livres e
outras substâncias tóxicas que danificam as proteínas e outras macromoléculas
da célula. “Como há aumento na produção de proteínas oxidadas e o controle de
qualidade está desregulado, elas começam a se acumular e a impedir que as
células cardíacas contraiam de forma apropriada. Com o tempo, o coração vai
deixando de bater adequadamente e as células começam a morrer”, disse Ferreira.
Nos experimentos feitos com ratos, a molécula desenvolvida se mostrou capaz de
reativar o sistema de controle de qualidade nas células cardíacas. As proteínas
oxidadas voltaram a ser eliminadas pelo proteassomo e o processo degenerativo
foi interrompido. Antes de testar o candidato a fármaco em seres humanos, os
pesquisadores pretendem realizar outra rodada de ensaios pré-clínicos com
animais de maior porte, possivelmente porcos. “A molécula já foi bem-sucedida
nos testes de toxicidade realizados em animais. Se tudo correr bem, dentro de
aproximadamente sete anos saberemos com certeza se ela poderá se tornar um
medicamento”, afirmou Ferreira. O artigo Protein Quality Control Disruptionby PKCβII in Heart Failure; Rescue by the Selective PKCβII Inhibitor, βIIV5-3(doi:10.1371/journal.pone.0033175), de Julio Ferreira e outros, pode ser lido
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