segunda-feira, 27 de novembro de 2017

MÉTRICAS ALTERNATIVAS PARA A AVALIAÇÃO DA PRODUÇÃO CIENTÍFICA: UM GUIA BÁSICO PARA O USO DE ALTMETRIA PARA BIBLIOTECÁRIOS

O presente trabalho trata sobre o estudo e uso de métricas alternativas de impacto acadêmico baseadas em atividades e ferramentas online, que se tornaram conhecidas como altmetrics, ou em português, altmetria. A avaliação de impacto da produção científica tem sido tema de constante discussão na comunidade acadêmica. No entanto, os índices tradicionais de aferição de impacto de publicações e artigos científicos vêm sendo alvo de questionamentos e críticas importantes sobre a sua validade e atualidade, e junto a um cenário da produção acadêmica cada vez mais vinculada aos meios eletrônicos, levaram a comunidade acadêmica a buscar e desenvolver maneiras alternativas de medir, avaliar e legitimar essa produção científica. Frente a necessidade de compreender melhor o contexto e as implicações da altmetria na avaliação da produção acadêmica, sobretudo no contexto da comunidade acadêmica brasileira, este trabalho apresenta conceitos básicos sobre as métricas alternativas e sua aplicação, com foco na atuação de bibliotecários e outros profissionais ligados à comunicação científica, como pesquisadores, editores científicos e gestores acadêmicos. Descreve as principais ferramentas disponíveis para captação e geração de métricas alternativas, assim como as iniciativas nacionais e internacionais em curso com vistas ao desenvolvimento de políticas para o uso de métricas alternativas. O produto final dessa pesquisa é apresentado na forma de um guia prático voltado para a atuação de bibliotecários e outros profissionais ligados à comunicação científica. 

sábado, 29 de julho de 2017

Tendências temporais na contagem de esperma: análise sistemática e análise de meta-regressão


Os declínios relatados nas contagens de esperma continuam controversos hoje e as recentes tendências são desconhecidas. Uma meta-análise definitiva é crítica, dado o valor preditivo da contagem de esperma para fertilidade, morbidade e mortalidade.

OBJETIVO E FUNDAMENTO

Proporcionar uma revisão sistemática e análise de meta-regressão das tendências recentes nas contagens de esperma medida pela concentração de esperma (SC) e contagem total de espermatozoides (TSC) e sua modificação por fertilidade e grupo geográfico.

MÉTODO DE PESQUISA

PubMed / MEDLINE e EMBASE foram pesquisados ​​por estudos de inglês de humanos SC publicados em 1981-2013. Seguindo um protocolo predefinido, 7518 resumos foram selecionados 2510 artigos completos relatando dados primários em que SC foram revisados. Um total de 244 estimativas de SC e TSC de 185 estudos de 42 935 homens que forneceram amostras de sêmen em 1973-2011 foram extraídos para análise de meta-regressão, bem como informações sobre anos de coleta de amostras e co-variáveis ​​[grupo de fertilidade ('Não selecionado por Fertilidade versus fértil, grupo geográfico "ocidental", incluindo América do Norte, Europa, Austrália e Nova Zelândia versus "Outros", incluindo a América do Sul, Ásia e África), idade, tempo de abstinência da ejaculação, método de coleta de sêmen, método de Medindo SC e volume de sêmen, critérios de exclusão e indicadores de integridade dos dados co-variáveis. As encostas de SC e TSC foram estimadas como funções do ano de coleta de amostra usando regressão linear simples e modelos de meta-regressão ponderados e os últimos foram ajustados para co-variáveis ​​pré-determinadas e modificação por fertilidade e grupo geográfico. Os pressupostos foram examinados usando múltiplas análises de sensibilidade e modelos não-lineares.

IMPLICAÇÕES MAIS COMPLETAS

Esta análise abrangente de meta-regressão relata um declínio significativo nas contagens de esperma (medida por SC e TSC) entre 1973 e 2011, impulsionada por um declínio de 50-60% entre os homens não selecionados pela fertilidade da América do Norte, Europa, Austrália e Nova Zelândia. Devido às implicações significativas para a saúde pública desses resultados, a pesquisa sobre as causas desse declínio contínuo é urgentemente necessária.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Pesquisa encontra relação entre transtornos de borderline e adicções: Nos relacionamentos aditivos, a necessidade de garantir a presença do outro pode ter um padrão similar à dependência de uma droga

Por  - Editorias: Ciências da Saúde

Pesquisa do Instituto de Psicologia (IP) da USP detecta inter-relação entre distúrbios de borderline, problema psíquico que afeta pessoas que estabelecem relações afetivas turbulentas e destrutivas, e comportamentos adictivos, quando indivíduos criam vínculos de dependência com drogas, jogos, objetos e com o outro. O trabalho traz novos conhecimentos sobre doenças de saúde mental e contribuirá para uma melhor intervenção de atendimentos de pacientes que sofrem com o problema.
Conhecidas pelas oscilações de humor, relacionamentos turbulentos, impulsividade e sentimento constante de ameaça pela perda de amigos, familiares ou pessoa amada, pessoas com este perfil psicológico não só sofrem por não controlar suas próprias emoções mas também pelo estigma social que a doença lhes traz. Segundo o psicanalista Marcelo Soares da Cruz, autor da pesquisa, os que vivem este drama são vistos como pessoas mimadas, destrutivas e inconsequentes. Embora sejam difíceis de lidar, precisam receber tratamento adequado e serem acolhidas. Agem por necessidades emocionais profundas e concretas, não por mero capricho.

Tendo como base dados clínicos, o psicoterapeuta analisou três casos concretos: uma mulher de 35 anos, um adolescente de 14 e um homem de 32. Conhecendo a história de vida destes pacientes, foram diagnosticados como tendo características de ambos os transtornos, borderline e adicção. A pesquisa “chegou à compreensão de que o sofrimento borderline carrega um traço de adicção inerente. Uma ‘fissura’ maciça pelo outro, a fim de garantir sua presença, nos moldes do uso de uma droga, que tem que ser repetidamente buscada”, explica Cruz.
Dos três pacientes, a mulher chegou ao consultório com uma história de vida bastante conturbada. Com apenas 32 anos, já tinha passado pela experiência dolorosa de 35 internações em clínicas psiquiátricas. Todas por tentativas de autolesão (pular de uma janela alta, ligar o gás na tentativa de se asfixiar e ou sair do carro em movimento). “Ela recorria a expedientes que tentavam provocar no outro uma aproximação.” Para o psicoterapeuta, é uma desesperança no vínculo afetivo. Os atos contundentes buscam essencialmente a manutenção da ligação, na forma de um vício ao outro, afirma.
Embora fosse casada, a mulher buscava freneticamente outros relacionamentos pela internet, mas sem intenção de traição conjugal. O psicoterapeuta percebeu que ela desejava apenas aferir o interesse de outras pessoas por ela. Nos prontos socorros, frequentava hospitais para contrair doenças e ser posteriormente cuidada por seus familiares. Na fantasia de sua cabeça, “estar doente significaria ter a garantia da presença do outro”, explica.
Tanto o adolescente como a mulher faziam conjuntamente acompanhamento psiquiátrico. A psicoterapia trabalhou na linha de construção de uma experiência emocional e relacional mais estável. O objetivo era restituir, abrigar e significar falhas importantes ocorridas na primeira infância ou que tinham sido desencadeadas por acontecimentos traumáticos vividos pela pessoa, afirma Cruz.
O acompanhamento psicoterapêutico deu resultados positivos. A paciente, que nunca havia trabalhado, teve uma primeira experiência de atividade profissional, passou a ser uma pessoa mais organizada e começou a ter mais autonomia, “conquistas viabilizadas pela construção da experiência de permanência interna dessas figuras, em detrimento das fantasias de ruptura tão proeminentes em sua vida anterior”. Em meio ao tratamento, lendo o livro O Pequeno Príncipe, a paciente se identificou com a rosa que era bastante solitária no mundo. “Ela encontrou suporte na obra de Antoine de Saint-Exupéry e conseguiu dar sentido e verbalizar seu sofrimento”, avalia o pesquisador.
A tese Adição ao outro em pacientes fronteiriços: um estudo psicanalítico foi orientada pela professora Leila Salomão de la Plata Cury Tardivo, do Instituto de Psicologia (IP) da USP.

terça-feira, 14 de março de 2017

Reprodutibilidade questionada

Pesquisa Fapesp ED. 252 | FEVEREIRO 2017

Começaram a sair os resultados da Iniciativa de Reprodutibilidade, um projeto norte-americano lançado em 2013 para avaliar a reprodutibilidade de 50 candidatos a medicamentos contra câncer, depois de a empresa de biotecnologia Amgen ter comunicado que não havia conseguido refazer, com os mesmos resultados, 47 de 53 experimentos descritos em revistas como NatureScience e Cell. Cinco estudos foram apresentados em janeiro na Nature e eLife: o teste dos efeitos de um peptídeo antitumoral falhou, os de dois compostos anticâncer apresentaram dados praticamente iguais aos do estudo original e outros dois não tiveram resultados claros, impossibilitando comparações.

Erkki Ruoslahtia, pesquisador do Instituto de Pesquisa Médica Sanford Burnham Prebys, da Califórnia, responsável por um peptídeo antitumoral que não passou nos testes, disse à Nature que pelo menos 10 laboratórios nos Estados Unidos, Europa, China e Japão tinham chegado aos mesmos resultados que os seus. Segundo ele, o fato de um experimento não ter sido reproduzido de modo fiel ao estudo inicial não significa que não possa levar aos mesmos resultados. Ruoslahtia disse temer que a irreprodutibilidade dos resultados prejudicasse a aprovação dos pedidos para financiamentos das próximas pesquisas.

A falha em reproduzir os resultados não implica necessariamente que as conclusões apresentadas estejam erradas, alertou Tim Errington, gerente da Iniciativa de Reprodutibilidade e pesquisador do Center for Open Science da Universidade de Virgínia, Estados Unidos. Segundo ele, os pesquisadores deveriam tomar os resultados negativos como informação, não como condenação, a não ser que outros também não cheguem aos resultados esperados. À Nature, Errington comentou que talvez a conclusão mais clara desse projeto seja que muitos artigos incluem poucos detalhes sobre os métodos usados nos experimentos.
No editorial, a Nature lembrou que a reprodutibilidade é um dos pressupostos do trabalho científico e ressaltou, sem justificar, a diferença entre os resultados dos experimentos originais e as replicações. Em um dos casos, os camundongos com câncer induzido tratados com um antitumoral sobreviveram nove semanas no estudo original e apenas uma nos experimentos que tentaram reproduzir o trabalho inicial.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Como prever o impacto de pesquisas

Agência FAPESP
Em 1905, Albert Einstein publicou uma série de artigos no periódico Annalen der Physik que estabeleceu a base da Física moderna, alterando os conceitos a respeito de espaço, tempo, massa e energia. Outroannus mirabilis para a ciência foi 1953, com a publicação de um artigo naNature em que James Watson e Francis Crick descreveram a estrutura molecular do DNA.
Einstein, Watson e Crick sabiam muito bem da importância de seus trabalhos, mas não poderiam prever a dimensão do impacto que seus artigos promoveriam na ciência anos ou décadas depois.
A mesma Nature que revelou o formato de dupla hélice do ácido desoxirribonucleico acaba de lançar uma curiosa forma para prever o impacto de artigos científicos. Impacto, é bom dizer, não na comunidade científica atual, mas no mundo como um todo. E no futuro.
O SciPher é um produto de inteligência artificial feito em um “porão secreto” por especialistas da equipe editorial da revista. O sistema é capaz de prever com 100% de exatidão o efeito de uma determinada pesquisa daqui a 50 anos.
É claro que se trata de uma brincadeira. No site do SciPher, qualquer cientista pode inserir o título ou um breve resumo de sua pesquisa (em inglês) para saber o impacto do trabalho no futuro. Futuro na Terra e em outros mundos, uma vez que a base do sistema utiliza tanto o arquivo da Nature como detalhes de episódios de seriados de televisão.
O site marca a nova edição da revista, que celebra o gênero da ficção científica. A edição especial traz reportagens sobre a vida e a obra de H. G. Wells, sobre como cientistas foram inspirados por obras da ficção e uma análise do impacto de Jornada nas Estrelas– que faz 50 anos –, entre vários outros temas.
Um exemplo de como funciona o SciPher. Ao inserir o título do artigo de Watson e Crick de 1953 – Molecular Structure of Nucleic Acids: A Structure for Deoxyribose Nucleic Acid, a previsão retorna pérolas do tipo: “Sua tentativa de salvar uma base secreta de ácido desoxirribonucleico será bem sucedida, levando eventualmente à destruição de toda a vida no Universo”. Esse impacto certamente os descobridores da dupla hélice não poderiam imaginar.
Mais informações: www.nature.com/scifi-predictor 

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Pesquisadores “treinam” nanotubos de carbono para realizar tarefa computacional

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP
Uma técnica computacional, inspirada na biologia evolutiva, possibilitou que nanotubos de carbono, dispersos em cristal líquido, fossem rearranjados por meio de sinais elétricos, de modo a desempenhar o papel de um nanocircuito, capaz de executar tarefas computacionais simples. O experimento teve a participação do físico brasileiro Diogo Volpati e foi divulgado no artigo científico “Evolution of Electronic Circuits using Carbon Nanotube Composites”, publicado naScientific Reports, publicação do Grupo Nature.
Atualmente pesquisador pós-doutorando na Mid Sweden University, da Suécia, Volpati participou do estudo no contexto de sua pesquisa “Controle molecular em filmes nanoestruturados de nanotubos de carbono”, apoiada pela FAPESP.
“Em vez de criar um circuito elétrico passo a passo utilizando componentes discretos [capacitores, resistores etc.], nós 'treinamos' uma quantidade de material para que ela desempenhasse o papel do circuito e executasse a tarefa computacional de separação de conjuntos de dados. Esse treinamento foi feito por meio de um algoritmo evolutivo, baseado em conceitos da biologia”, disse o pesquisador à Agência FAPESP.
No experimento, os nanotubos foram dispersos em uma matriz de cristal líquido. E uma gota, da ordem de grandeza do microlitro, foi colada sobre um conjunto de eletrodos, que forneceram os inputs e outputs para o sinal elétrico. Sem o sinal, os nanotubos ficaram “desorientados”, isto é, posicionaram-se no meio de forma aleatória. Com o sinal, eles se reposicionaram, movendo-se no cristal líquido de acordo com as linhas de força do campo elétrico. Os pesquisadores testaram diferentes concentrações de nanotubos em matriz de cristal líquido.
A figura publicada nesta página, reproduzida da Scientific Reports, mostra esquematicamente o experimento. A área cinza corresponde à gota de cristal líquido contendo nanotubos, disposta sobre os eletrodos (linhas e pontos amarelos). No detalhe do pequeno círculo, limitado pela circunferência pontilhada vermelha, os diferentes eletrodos são conectados somente pela rede de nanotubos. Inicialmente, a falta de sinal elétrico deixa os nanotubos (segmentos pretos) desorientados. As setas em vermelho mostram os eletrodos que forneceram os estímulos elétricos de treinamento. Os eletrodos das pontas são os responsáveis por realizar a tarefa computacional, promovida pelo realinhamento dos nanotubos mediante os estímulos elétricos de treinamento.
“Basicamente, o experimento consistiu em modificar as características morfológicas e as propriedades elétricas do material [o compósito de nanotubos de carbono com cristal líquido] utilizando sinais elétricos. O objetivo da mudança foi ‘treinar’ o material para executar uma tarefa computacional dentro da rede de eletrodos”, resumiu Volpati.
A tarefa computacional realizada, a separação de dois conjuntos de dados, é extremamente simples. Mas o objetivo do experimento não era a realização de uma tarefa complexa. E, sim, apresentar a prova de princípio de que um material podia ser “treinado”.

Para “treinar” o material, os sinais elétricos destinados a rearranjar os nanotubos foram aplicados de acordo com um algoritmo evolutivo. “Tínhamos dados misturados pertencentes a duas classes distintas. E ‘pedimos’ ao material que os separasse. Cada vez que o erro na separação se mostrava grande, promovíamos a ‘evolução’ do material, fazendo passar novamente o sinal elétrico entre diferentes eletrodos. E esse processo de treinamento e realização da tarefa foi repetido várias vezes, até os erros serem reduzidos ao mínimo aceitável”, detalhou Volpati.
Como afirmou o pesquisador, não se espera que essa abordagem computacional compita com os computadores atuais, baseados em silício. Mas dispositivos de baixa potência e baixo custo poderiam ser fabricados em breve, como, por exemplo, no processamento de sinais analógicos. No longo prazo, as possibilidades são inimagináveis. A pesquisa definiu todo um novo campo de estudos a ser explorado.
“Nossa abordagem mostrou que uma pequena quantidade de material pode substituir um complexo circuito elétrico. Basta ‘treinar’ o material para que ele execute a tarefa desejada. Assim como um organismo biológico evolui e executa tarefas, mostramos que um material não biológico também pode evoluir”, conjecturou o pesquisador.
O artigo Evolution of Electronic Circuits using Carbon Nanotube Composites, publicado na Scientific Reports, pode ser acessado no endereço 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Vacina contra a dengue pode ser adaptada para o Zika, afirma diretor do Butantan

Karina Toledo  |  Agência FAPESP

A tecnologia desenvolvida na formulação da vacina brasileira contra a dengue – que contou com apoio da FAPESP e já entrou na fase final de ensaio clínico – pode ser adaptada para criar um imunizante contra o vírus Zika, afirmou o diretor do Instituto Butantan, Jorge Kalil, em entrevista concedida àAgência FAPESP.

Segundo ele, uma das possibilidades seria inserir no vírus vacinal da dengue um gene codificador de uma proteína-chave do vírus Zika. Outra ideia seria criar um vírus Zika atenuado, usando método semelhante ao empregado no desenvolvimento da vacina da dengue.
O Instituto Butantan, que integra a recém-criada Rede Zika (força-tarefa apoiada pela FAPESP e formada por cerca de 40 laboratórios), também já deu início a pesquisas voltadas ao desenvolvimento de um soro que poderia ser aplicado em gestantes infectadas para combater o vírus Zika circulante no organismo antes que ele cause danos ao feto.
Ainda durante a entrevista, Kalil falou sobre os preparativos necessários para o início da imunização dos voluntários participantes da terceira etapa de ensaios clínicos da vacina tetravalente contra a dengue, prevista para começar este mês.
“Estamos vivendo uma crise aguda de Zika, mas não podemos minimizar a dengue. É uma doença que persiste, ainda mata no país e deve vir com muita força este ano”, avaliou. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Aumentar a produção de carne bovina poderiam reduzir as emissões de gases de efeito estufa no Brasil se dissociado do desmatamento

Resumo dos autores:

R. de Oliveira Silva, L. G. Barioni, J. A. J. Hall, M. Folegatti Matsuura, T. Zanett Albertini,F. A. Fernandes, D. Moran

Debate recente sobre efeito estufa agrícola destaques de mitigação das emissões de gases inerentes à forma de produzir e consumir alimentos, com crescente escrutínio sobre emissões intensivas produtos de origem animal (1, 2, 3). Embora a maioria das pesquisas tem se concentrado na mitigação através da melhoria da produtividade (4,5), sistêmica interações resultantes da produção de carne bovina reduzida a nível regional é ainda inexplorado.

Um modelo de otimização detalhada da produção de carne abrangendo degradação de pastagens e os processos de recuperação, as emissões de animais e desmatamento, carbono orgânico no solo (SOC) dinâmica e inventário de ciclo de vida a montante foi desenvolvida e parâmetros para o Cerrado brasileiro. Retorno econômico foi maximizada considerando dois cenários alternativos: dissociado pecuária-desmatamento (DLD), assumindo as taxas de desmatamento da linha de base controladas pela política eficaz; e acoplado pecuária-desmatamento (CLD), em que a inversão demanda por carne bovina altera as taxas de desmatamento. Em DLD, consumo reduzido, na verdade, leva sistemas de corte a menos produtivos, associadas com intensidades de emissão mais elevados e as emissões totais, enquanto que o aumento da produção leva a sistemas mais eficientes, com estoques de COS impulsionaram, reduzindo tanto por quilograma e emissões totais. Sob CLD, aumento da produção leva a emissões de 60% mais elevados do que em DLD. Os resultados indicam a extensão em que o controle do desmatamento contribui para a intensificação sustentável nos sistemas de carne bovina do Cerrado, e como alternativa ao ciclo de vida abordagens analíticas resultar em valores diferentes estimativas de emissão.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Cérebros mais eficientes compreendem melhor a língua mãe

Crislaine Messias, do Serviço de Comunicação Social do Campus de Ribeirão Preto

Pessoas com maior compreensão verbal da língua portuguesa têm cérebros mais eficientes. Isso pode ser uma evidência de que, para essas pessoas, o processamento cognitivo nas vias cerebrais tem mais agilidade e qualidade. Considerando o cérebro como uma rede de tráfego de informações, a maior eficiência é apenas um dos achados de que certas conexões do cérebro estão relacionadas com algum tipo de inteligência. É o que aponta estudo realizado por Gustavo Pamplona, do Programa de Pós-Graduação em Física Aplicada à Medicina e Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP.O pesquisador enfatiza que esse resultado foi visto em várias regiões cerebrais, principalmente frontais e laterais. Pamplona quis verificar se regiões especificas do cérebro estão conectadas – e com que intensidade, e a partir disso entender sua relação com características de cada indivíduo, como, por exemplo, a inteligência. Além de avaliar a relação entre ligações cerebrais e índices de inteligência, o pesquisador também analisou diferenças entre conexões cerebrais quando um indivíduo está com a atenção voltada para um ponto fixo e quando está com pensamentos aleatórios.

Passo a passo dos testes

Para medir a inteligência dos participantes, foi utilizado o teste WAIS-III que, segundo Pamplona, é direcionado para adultos e consiste na realização de atividades que vão desde decorar sequências numéricas até montar quebra-cabeças tridimensionais. “Assim é possível avaliar a compreensão verbal, a percepção, a memória e a resolução de problemas”, diz Pamplona.Participaram da pesquisa 30 pessoas saudáveis, que responderam a testes aplicados pelo neuropsicólogo Gerson Silva Santos Neto, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP. Santos mediu os índices de inteligência dos participantes, avaliando as habilidades verbais, de organização, de memória e de processamento mental de cada um.Depois disso, todos foram submetidos ao exame de ressonância magnética funcional, método de diagnóstico por imagem capaz de obter informações detalhadas sobre o funcionamento do cérebro naquele exato momento. Os participantes estavam acordados e imóveis, mas livres para pensar sobre qualquer assunto.Em seguida, as imagens passaram por um tratamento computacional para aumentar a qualidade dos dados obtidos, o que garantiu em cada voluntário a análise de 82 regiões do cérebro. Foram medidos o grau de ligação entre essas 82 regiões e comparados com os resultados dos testes de inteligência.



Resultados

De acordo com Pamplona, apesar de o estudo realizado não ser diretamente clínico, contribui no entendimento do cérebro em suas funções cognitivas. “A análise das conexões cerebrais ligadas à inteligência é a primeira realizada com falantes da língua portuguesa, porém, existem alguns resultados semelhantes na Holanda, Estados Unidos e China”. Os próximos passos da pesquisa têm como objetivo a melhoria da sustentação da atenção por um indivíduo. “Isso será feito por meio de treinamento individual dentro da máquina de ressonância magnética, mostrando em uma tela um ‘termômetro’ que reflita o sinal de regiões cerebrais relacionadas à atenção”.

Conexões cerebrais

O estudo da conectividade cerebral busca verificar se regiões cerebrais específicas estão conectadas e entender suas relações com doenças e características de cada indivíduo. Esse estudo divide-se em conectividade funcional (a técnica usada pelo pesquisador), que analisa se as regiões cerebrais estão trabalhando em sincronia ao longo do tempo, e estrutural, que procura por ligações anatômicas diretas entre as regiões cerebrais através de fibras axonais – que fazem parte dos neurônios. Ambas as técnicas são concordantes e podem ser estudadas através de imagens por ressonância magnética.A pesquisa rendeu publicação na revista Frontiers in Human Neuroscience, em janeiro do ano passado, com o título “Analyzing the association between functional connectivity of the brain and intellectual performance”. A orientação foi do professor Carlos Ernesto Garrido Salmon, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Desmatamento reduz tamanho de peixes em região amazônica

Por Antonio Carlos Quinto - acquinto@usp.br

Entre os diversos danos causados pelo desmatamento na Amazônia em virtude da expansão agrícola, uma pesquisa desenvolvida no Instituto de Biociências (IB) da USP mostra que houve diminuição no tamanho de algumas espécies de peixes. Para realizar o estudo dos Efeitos da conversão de florestas em áreas agrícolas sobre assembleias de peixes das cabeceiras do Rio Xingu, o ecólogo Paulo Ricardo Ilha Jiquiriçá coletou quase 4 mil peixes de 36 espécies diferentes na região de Canarana, no Mato Grosso, cidade conhecida como portal do Xingu. Ele conta que seus estudos tinham como objetivo inicial avaliar os efeitos do desmatamento e da construção de barragens sobre a fauna de peixes (assembleias). “Contudo, no decorrer da pesquisa percebemos que o tamanho corporal dos peixes nos riachos em áreas agrícolas era significativamente menor em comparação com os riachos em áreas de florestas”, conta.


Sob orientação do professor Luis Cesar Schiesari, do curso de Gestão Ambiental da Escola de Artes Ciências e Humanidades (EACH), e com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o cientista deu início às suas pesquisas no ano de 2011. Além dos estudos nos laboratórios do IB, Paulo passou cerca de 18 meses em pesquisas de campo, residindo em Canarana. Lá, em colaboração com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), o cientista realizou coletas em seis riachos, sendo três localizados em áreas de florestas e outros três em áreas agrícolas.
Nestas propriedades agrícolas é comum a degradação das matas ciliares e a construção de barragens que represam trechos dos riachos, seja para armazenar água para o gado ou para abastecer pequenas hidrelétricas. Paulo conta que a região já conta com mais de dez mil pequenas barragens. Os cursos d’água avaliados no estudo estão nas cabeceiras de rios afluentes que formam o Rio Xingu (rios Tanguro e Darro), no centro-leste do Mato Grosso. A região é uma das maiores produtoras de soja do País e está localizada no arco do desmatamento amazônico.


Redução de peso

diversas alterações na fauna de peixes foram observadas nos riachos em áreas agrícolas e relacionadas a alterações ambientais. Paulo cita como exemplo uma espécie de rivulídeo, parente dos “killifishes” de aquário, que mede menos de 4 centímetros (cm) e aumentou em abundância nos riachos agrícolas. “Isso ocorreu devido a alterações das características naturais dos riachos. Após o desmatamento, as margens desses córregos são invadidas por gramíneas (Brachiarias) que reduzem a profundidade e criam um ambiente onde os predadores dos rivulídeos não conseguem alcançá-los, o que permite sua proliferação”, conta.


Em contrapartida, espécies que eram comuns nos riachos desapareceram das represas. “Ao menos três espécies de pequenas ‘piabas’ que eram comuns em trechos de água corrente não foram encontradas em trechos represados”, conta.
Entretanto, a constatação que mais chamou a atenção foi a de que quatro das seis espécies mais abundantes nos riachos estudados diminuíram de tamanho (em massa), entre 44% e 57%, nas áreas agrícolas. “É provável que o aquecimento da água seja responsável, ao menos em parte, pela redução de tamanho dessas espécies” acredita.
Medições feitas em campo mostraram que nos riachos de florestas e ainda não alterados em suas características as temperaturas da água eram, em média, entre 24 graus Celsius (°C) e 26°C. “Já nos riachos em áreas agrícolas, nas horas mais quentes do dia, as temperaturas atingiram até 35°C”, descreve. Para testar essa hipótese, Paulo realizou um experimento em laboratório no Departamento de Fisiologia do IB em colaboração com o professor Carlos Arturo Navas Ianini.


Lá, foram criados peixes (da mesma espécie de rivulídeo citada) em temperaturas semelhantes às dos riachos agrícolas e de florestas. “Os peixes criados em temperatura semelhante às dos riachos agrícolas perderam massa, diminuindo de tamanho, enquanto os peixes criados em temperatura semelhante às dos riachos de florestas cresceram”. A pesquisa não investigou os mecanismos fisiológicos que levam à diminuição do tamanho dos peixes, mas constatou que a temperatura da água é um fator preponderante. Paulo ressalta que este pode ser o primeiro estudo a fazer a relação direta entre a redução de tamanho dos peixes e o aquecimento provocado pela conversão de florestas em áreas agrícolas. “É possível que isto esteja acontecendo ao longo de todo o arco do desmatamento amazônico e que venha a causar perdas de biodiversidade”.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Religiosidade traz alívio para idosos em hemodiálise

Raquel Duarte, da Assessoria de Comunicação da EERP
Estudo realizado na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP que investigou o Bem-Estar Espiritual e a Religiosidade de idosos em tratamento hemodialítico, aponta que essas pessoas encontram na religiosidade características positivas para lidar com situações que a doença gera. A crença também traz qualidade de vida e alívio durante o tratamento hemodialítico, revela o estudo. A pesquisa foi feita pela enfermeira Calíope Pilger, na cidade de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, e teve como objetivo analisar a relação entre o bem-estar espiritual, a religiosidade, o enfrentamento religioso e espiritual, as variáveis sociodemográficas, econômicas e de saúde, com a qualidade de vida de idosos que se encontram em tratamento. Os idosos que realizam hemodiálise precisam se adaptar a um novo estilo de vida que a doença renal crônica lhes impõem. Nessa nova vida, diz a pesquisadora, eles se deparam com o uso contínuo de medicações, mudança nos hábitos alimentares, o enfrentamento da dependência de outras pessoas, de aparelhos para adaptações à nova realidade da sua vida, e isto pode levá-los a depressão, problemas emocionais e existenciais. Nesse sentido, a religião é utilizada pelos pacientes como enfrentamento para as situações estressantes da vida, segundo Calíope. “Eles usam a fé como uma forma de auxiliar as consequências emocionais negativas que vieram depois da doença, ou então dos momentos difíceis que precisam vivenciar”. Para os idosos, algumas questões são apontadas como importantes dentro da religião, como estar conectado com Deus, o encontro com pessoas nas igrejas, ou templos religiosos. Com isso, relatam, dividem a mesma crença, a realização de ações sociais, como grupos de oração, visita aos doentes e a fé, que auxilia nas dificuldades que a vida impõe. Dos 169 idosos questionados, 125 eram do sexo masculino, e 44 do sexo feminino, com idade entre 60 e 99 anos. Do total, 104 fazem parte da religião católica, 35 da religião evangélica, 15 da religião espírita e uma da budista. Os demais não possuem religião. Para obter os resultados da pesquisa, Calíope utilizou alguns métodos, entre eles, o Índice de Religiosidade de Duke, que mensura três das principais dimensões do envolvimento religioso relacionadas a desfechos em saúde: Religiosidade Organizacional (RO), que é a frequência a encontros religiosos; Religiosidade Não Organizacional (RNO), frequência de atividades religiosas privadas; e a Religiosidade Intrínseca (RI), que refere-se a busca de internalização e vivência plena da religiosidade como principal objetivo do indivíduo. Mulheres se apegam mais a religião O estudo constatou que as mulheres apresentaram maior RO, RNO e RI quando comparadas aos homens. Os idosos com até 80 anos de idade apresentaram maior RO, porém, os com 80 anos ou mais apresentaram maior RNO e RI. Alguns índices indicaram que quanto maior a idade e o número de comorbidades, menores a RO, outro dado é que quanto maior o tempo de tratamento hemodialítico maior a religiosidade. Segundo a pesquisadora, os idosos afirmaram que, a doença renal crônica é vista como uma das piores e mais sofridas doenças, pois após os rins pararem de funcionar, o paciente necessita realizar o processo de hemodiálise. O processo permite a remoção das toxinas e o excesso de água do organismo, a partir da filtragem do sangue em um rim artificial por meio de uma máquina, o que é feito três vezes por semana, com duração de quatro horas cada sessão. “O tratamento hemodialítico promove o equilíbrio do corpo e mantém a vida”, diz Calíope. É nesse momento que os pacientes buscam e religião, diz a pesquisadora, como forma de estratégia, conforto, ou, fonte de esperança para enfrentar a situação em que se encontram. Para ela tal prática é importante, uma vez que ajuda a administrarem o seu dia a dia. “Percebo a importância da religião como suporte social, pois é uma forma de o idoso se socializar; mas muito importante também é a esperança, o conforto que a crença em algo Superior proporciona a saúde física, mental e social. Além de representar uma estratégia de enfrentamento de situações estressantes”, afirma ela. Calíope lembra que diferente de pessoas em outras fases da vida, os idosos possuem suas singularidades e especificidades, seja nas dimensões físicas, sociais, emocionais e espirituais. “Na parte espiritual, as particularidades dos idosos estão relacionadas às questões existenciais, e a busca pela cura e conforto. A tese Estudo correlacional entre bem-estar espiritual, religiosidade, enfrentamento religioso e espiritual e qualidade de vida de idosos em tratamento hemodialítico, foi defendida em maio último, com orientação da professora Luciana Kusumota.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Os sentidos do “jeitinho brasileiro” em nossa cultura

Por Valéria Dias - valdias@usp.br


O “jeitinho brasileiro” é usado para definir tanto as situações positivas como as negativas: a criatividade ao resolver conflitos e até ao falarmos de corrupção. Na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, pesquisa apresenta as diversas nuances dos sentidos que o “jeitinho brasileiro” pode ter na cultura brasileira e mostra outras possibilidades de se expressar diante de tais situações.
“A ideia é mostrar a existência de outras palavras e expressões que trazem uma maior precisão para o entendimento de um determinado fato”, destaca a autora do estudo, a professora de inglês Valquiria da Silva Moisés. As palavras que ela sugere são: solidariedade, sobrevivência, habilidade, criatividade, flexibilidade, improvisação, charme, simpatia, malandragem, prevaricação, hipocrisia, flexibilidade moral. Ela ressalta, no entanto, que há uma linha muito tênue entre essas palavras e, por isso, fica difícil estabelecer uma ordem muito rígida entre elas.
A pesquisadora se baseou na representação gráfica criada por Livia Barbosa, antropóloga que propõe uma sistematização do “jeitinho brasileiro” a partir de um continuum que vai do favor (positivo), passando pelo jeito (que pode ser positivo ou negativo) até a corrupção (negativo). Valquíria ampliou esse continuum e identificou palavras que poderiam se encaixar nessa sistematização.
Para isso, ela fez um levantamento de vários trabalhos nas áreas corporativa, administração, ciências sociais, letras, literatura, comunicação e semiótica. Foi realizado um estudo léxico (conjunto de palavras usadas em uma língua ou em um texto) levando em conta a semiótica discursiva francesa do linguísta Algirdas Julius Greimas, que “tem o texto como seu objeto e procura explicar os seus sentidos, isto é, o que o texto diz, e os mecanismos e os procedimentos que constroem esses sentidos”, explica Valquíria. A pesquisadora também selecionou músicas, textos e até fatos históricos sobre o tema.




Texto completo: 
 Do jeitinho brasileiro ao Brazilian little way: uma leitura semiótica

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Novo método facilita classificação de textos

Por Henrique Fontes, da Assessoria de Comunicação ICMC
comunica@icmc.usp.br


Imagine que você é dono de uma empresa e quer medir o grau de satisfação dos seus clientes nas redes sociais. Como filtrar rapidamente, entre milhares de publicações, os comentários positivos e negativos sobre sua marca? Uma técnica desenvolvida por um aluno de doutorado do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, promete facilitar esse trabalho. 

O criador do modelo, Rafael Rossi, escreveu um artigo científico mostrando os resultados obtidos e foi um dos dois premiados na 16th International Conference on Intelligent Text Processing and Computational Linguistics, uma das principais conferências de linguística e mineração de textos do mundo, realizada em abril, no Egito. Foram 62 países participantes e 329 artigos enviados à conferência. Apenas 95 deles foram aceitos e destes, dois premiados.

Para identificar quantas pessoas estão elogiando ou criticando um produto em uma rede social, por exemplo, basta o empresário selecionar alguns comentários bons e outros ruins sobre sua empresa. Com a técnica criada por Rossi, é possível identificar os termos utilizados pelos usuários nesses comentários e classificar, automaticamente, todos os demais depoimentos em positivos ou negativos.



Para tornar essa classificação viável, o doutorando desenvolveu um algoritmo, uma sequência de comandos que é passada para o computador a fim de definir uma tarefa. Nesse caso, a tarefa é classificar textos baseando-se em uma rede de termos. Com esse algoritmo, é possível rotular e organizar uma grande quantidade de textos a partir de poucas unidades previamente classificadas.

“Hoje em dia, com a grande quantidade de textos encontrados em diversos tipos de plataformas, é humanamente impossível organizar, processar e extrair conhecimento de todos eles”, conta o estudante, que é bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Foco no que interessa

A grande quantidade de informações a que um leitor está exposto quando realiza uma simples pesquisa na internet muitas vezes atrapalha e desvia seu foco. O modelo proposto por Rossi contribui para agilizar e facilitar esse processo.

“O diferencial do trabalho é que ele não considera apenas a frequência dos termos nos documentos, que é o mais comum nesse tipo de pesquisa. Leva-se em conta também a relação entre termos para realizar a classificação dos textos”, explica a orientadora do projeto, Solange Rezende, do ICMC. A professora diz ainda que, dessa forma, o que não é de interesse do leitor é automaticamente descartado. No trabalho, Solange e Rossi contam ainda com o apoio do professor Alneu Lopes, também do ICMC.

Outra possível aplicação do método é na organização de uma biblioteca virtual. O algoritmo consegue identificar e organizar os gêneros de uma grande quantidade de livros através de termos retirados de alguns exemplares anteriormente classificados. Assim, a separação dos livros por temas é facilitada.

O doutorando, que recebeu o prêmio pelo artigo Term Network Approach for Transductive Classification, defenderá sua tese nos próximos meses no ICMC.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

E-book reúne protocolos para estudo de habitats bentônicos

Karina Toledo | Agência FAPESP 


Pesquisadores da Rede de Monitoramento de Habitats Bentônicos Costeiros (ReBentos) – dedicada ao estudo de organismos que vivem nos substratos marinhos, como algas e corais – estão lançando um e-book com propostas metodológicas para o monitoramento contínuo e de longo prazo desses ecossistemas no litoral brasileiro.
A obra, intitulada Protocolos para o Monitoramento de Habitats Bentônicos Costeiros, foi elaborada com a participação de mais de 100 especialistas de todo o país. A organização é de Alexander Turra e Márcia Regina Denadai, ambos do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP).
“O objetivo é padronizar a coleta de dados e garantir que seja obtida uma amostragem mínima durante o monitoramento. Como nem todas as regiões do Brasil contam com boa infraestrutura, os métodos foram definidos buscando-se presteza, simplicidade dos procedimentos e baixo custo”, explicou Turra, coordenador da ReBentos.



Vinculada à Sub-Rede Zonas Costeiras da Rede Clima e ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT-MC), a ReBentos vem sendo estruturada desde 2011, com apoio da FAPESP.
O projeto é realizado no âmbito do Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade do Estado de São Paulo (BIOTA) da FAPESP. O objetivo é integrar o conhecimento produzido sobre habitats bentônicos do litoral brasileiro a fim de detectar efeitos das mudanças ambientais locais e globais sobre esses organismos e iniciar uma série histórica de dados sobre a biodiversidade bentônica na costa brasileira.
Segundo Turra, a elaboração de protocolos amostrais de campo foi desde o início uma das prioridades da rede.
“Com a publicação do e-book, todos os grupos de pesquisa do país, vinculados ou não à ReBentos, poderão desenvolver, de forma padronizada e possível de ser comparada, pesquisas nas diferentes regiões da costa. Esperamos que o volume seja uma referência nacional e estímulo para o estudo desses ecossistemas dentro do contexto das mudanças ambientais locais e globais”, disse.
Os habitats marinhos incluídos no volume são bancos de rodolitos, costões rochosos, estuários, os fundos submersos vegetados, manguezais e marismas, praias arenosas e recifes coralinos.
O livro tem 258 páginas, divididas em 20 capítulos, e conta com quase uma centena de ilustrações, além de modelos de planilhas e fichas de informações de campo. O prefácio foi escrito por Paulo Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). “Já estudamos a possibilidade de expandir esses protocolos para toda a América Latina. No caso das praias, já fizemos uma proposta internacional de monitoramento”, contou Turra.
Em um trabalho anterior publicado em 2013 na revista Global Change Biology, o grupo apresentou uma análise crítica dos estudos já existentes sobre habitats bentônicos na América Latina (leia mais em: agencia.fapesp.br/17139).
“Vimos que há grandes lacunas na produção de conhecimento e uma carência enorme de séries temporais. Os estudos que fazem coletas periódicas por longos períodos são uma raridade. Sem esse tipo de informação, coletada de forma padronizada e comparável, a gente não tem como discutir efeitos de mudanças climáticas”, afirmou Turra.
O lançamento oficial do e-book será realizado na sede da FAPESP no dia 5 de agosto. A versão digital, de livre acesso, poderá ser acessada no site da ReBentos: www.rebentos.org ou pelo link www.producao.usp.br/handle/BDPI/48874.
  • Protocolos para o Monitoramento de Habitats Bentônicos Costeiros 
  • Organizadores: Alexander Turra e Márcia Regina Denadai 
  • Lançamento: 5 de agosto de 2015 
  • Páginas: 258 
  •  

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Demência vascular é mais comum que Alzheimer em idosos

Por Júlio Bernardes - jubern@usp.br
Agência USP
Pesquisas realizadas em cérebros armazenados no Banco de Encéfalos da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) revelam maior prevalência de demência vascular e doença de pequenos vasos entre idosos, em comparação com a da doença de Alzheimer. Os estudos realizados no Banco, organizado pelo Grupo de Estudos em Envelhecimento Cerebral, encontraram alterações decorrentes de lesões cerebrais causados por problemas da circulação sanguínea, compatíveis com o quadro de demência vascular. A descoberta pode auxiliar na prevenção da doença, associada a fatores de risco cardiovascular, como hipertensão e diabetes.

Anteriormente, acreditava-se que a principal causa de demência entre idosos brasileiros era a doença de Alzheimer, a exemplo do que era verificado em estudos realizados no exterior. “A pesquisa avaliou 1.291 casos, sendo que 113 atenderam os critérios para o grupo ‘demência’, e entre os restantes, foram sorteados 100 para o grupo ‘controle’”, diz a professora Lea Grinberg, da FMUSP, que coordenou a pesquisa. “Os critérios de inclusão no grupo ‘demência’ foram ter mais de 50 anos, apresentar demência moderada ou grave e ter doado o cérebro para o Banco de Encéfalos”.


Os pesquisadores realizaram análises neuropatológicas, que verificaram a existência de lesões vasculares, tipo infarto ou arteriosclerose, ou depósitos de proteínas características de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson. “Para isso, usamos técnicas de imuno-histoquímica”, aponta Lea. “Em todos os casos, os dados clínicos foram obtidos com os familiares e um grupo de especialistas analisou os dados para chegar a um diagnóstico clínico”.
Os resultados da pesquisa comprovaram a hipótese de que na população de São Paulo grande parte dos casos de demências poderiam ter sido prevenidos se os fatores de risco cardiovasculares, como pressão arterial, colesterol e obesidade, tivessem sido tratados adequadamente. “Não existe tratamento para a demência, mas é possível evitar ou retardar seu aparecimento quando a causa é um problema da circulação sanguínea”, ressalta a professora. “Há consciência de que o controle de fatores de risco vasculares têm impacto positivo na saúde do coração. A pesquisa mostra que esse efeito pode se estender ao cérebro”.
Biobanco
O Banco de Encéfalos do Grupo de Estudos em Envelhecimento Cerebral da FMUSP surgiu a partir de um projeto pontual de pesquisa iniciado em 2003, que visava analisar 500 cérebros. “O objetivo é manter um biobanco para apoiar a realização de pesquisas sobre envelhecimento e doenças neurodegenerativas relacionadas”, conta a professora Renata Leite, que coordena as atividades realizadas no Banco de Encéfalos. “Atualmente, estão armazenados cerca de 3.500 cérebros”. Os cérebros são obtidos junto ao Serviço de Verificação de Óbitos da Capital (SVOC) da USP, responsável por esclarecer a causa de morte em casos de morte natural (causas não externas).

As famílias comparecem ao Serviço para reclamar o corpo, procedimento que envolve a assinatura de documento dando consentimento à autópsia. Nesse momento, a equipe do Banco de Encéfalos aborda a família para solicitar a doação do cérebro. “Uma vez realizada a doação, é feita a coleta”, relata a professora da FMUSP. “Parte dos encéfalos é conservada em formol e a outra é congelada”. O índice de concordância com a doação é de 94%. A prioridade é para os cérebros de pessoas com mais de 50 anos, para servir de suporte aos estudos sobre envelhecimento.
A equipe do Banco conta com três pesquisadores-seniores, os professores da FMUSP, Wilson Jacob Filho (área de Geriatria), Ricardo Nitrini (Neurologia) e Carlos Augusto Gonçalves Pasqualucci (Patologia), diretor do SVOC. Também participam os professores Renata Ferretti, da Escola de Enfermagem (EE) da USP, que coordena a abordagem junto às famílias dos doadores, Renata Leite e Lea Grinberg, da área de Patologia da FMUSP, Claudia Suemoto e José Marcelo Farfel (Geriatria), além de alunos de iniciação científica e pós-graduação.
O Banco de Encéfalos venceu o 7º Prêmio Inovação Medical Services, na categoria Ações, em premiação da área de saúde pública realizada pela empresa Sanofi, no último mês de maio. O estudo sobre demência vascular é descrito em artigo da revista Clinics, assinado por Lea Grinberg, Ricardo Nitrini, Claudia Suemoto, Renata Ferretti, Renata Leite, José Marcelo Farfel, Erika Santos, Mara Patrícia Guilhermino de Andrade, Ana Tereza Di Lorenzo Alho, Maria do Carmo Lima, Katia Oliveira, Edilaine Tampellini, Livia Polichiso, Glaucia Santos, Roberta Diehl Rodriguez, Kenji Ueda, Carlos Augusto Gonçalves Pasqualucci e Wilson Jacob-Filho.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Técnica gera automaticamente conteúdo para jogos

Fonte Agência USP

Desde criança, o aluno de mestrado do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, Lucas Ferreira, era um apaixonado por games. O gosto pelos jogos cresceu junto com ele e, hoje, ele aplica sua paixão pelo mundo virtual na criação de novos desafios para os amantes de jogos eletrônicos. O trabalho do estudante, no qual são geradas automaticamente fases dentro de um game, faz parte de sua dissertação de mestrado, que será defendida em breve no Instituto.



Ferreira desenvolveu um algoritmo, uma sequência de comandos que é passada para o computador a fim de definir uma tarefa, capaz de gerar automaticamente conteúdo e novos níveis dentro de um jogo. O game utilizado para testar seu modelo durante o mestrado foi o Angry Birds. “A gente procurou um contexto em que alguns estudos ainda não haviam sido aplicados. Como o Angry Birds é baseado em física, ele nos traria diversos desafios para gerar conteúdos”, diz o estudante.O estudo desenvolvido pelo mestrando foi criado para analisar a interação dos jogadores com as fases geradas. “Nossa ideia era medir o grau de imersão dos usuários, descobrir se eles perderam a noção do tempo durante o jogo, esquecendo-se do mundo. Esses são alguns dos principais sentimentos que a indústria de jogos quer promover nos jogadores”, explica o mestrando.Para obter essas informações, o aluno criou um questionário para que os usuários, após terem jogado algumas fases, pudessem responder e dar um feedback ao desenvolvedor, opinando sobre o nível de diversão, dificuldade e interação experimentados. Com essas respostas, é possível comparar as fases geradas pelo aluno com as do jogo original.Antes de iniciar seu mestrado no ICMC na área de Geração Procedural de Conteúdo, Ferreira trabalhava em uma empresa de jogos australiana no formato de home office e essa experiência contribuiu muito para seu mestrado: “Eu consegui aliar a experiência de jogador e desenvolvedor, o que me ajudou bastante a criar mais rápido o jogo utilizado nos experimentos. Se eu não tivesse essa experiência, teria sido muito mais difícil”.O trabalho, que começou há cerca de dois anos, está sendo orientado pelo professor Claudio Toledo, do ICMC. O docente já havia atuado anteriormente na área de games, quando foi orientador de uma iniciação científica no Instituto, a qual desenvolveu algoritmos baseados em computação evolutiva para inteligência artificial do jogo.Toledo diz que a execução de todas as etapas, tal como realizado no trabalho de Lucas, é algo difícil de ser encontrado: “Nós geramos conteúdo, avaliamos a jogabilidade e fizemos testes com humanos. Fechamos essas três etapas. Dificilmente você vê pesquisadores, mesmo no exterior, terminando esses três passos na área de geração de conteúdo. Essa foi a principal contribuição do projeto”.